Gaby Amarantos – Foto: Reprodução/Instagram/@gabyamarantos

Por Li Lacerda

A história das tranças remonta a 3.500 a.C. e, desde então, tem sido sinal simbólico de status social, etnia, religião e resistência racial. A trança não é apenas estilo, é uma forma de arte e sempre foi muito popular entre as mulheres. Sua origem é da região da Namíbia, na África. Em muitas tribos africanas as tranças eram uma forma de identificação de cada grupo. Os padrões das tranças eram uma indicação da tribo, idade, estado civil, riqueza, poder e religião de uma pessoa.

A trança foi e é uma forma de socializar, já que por ser um penteado que leva horas para fazer, a conversa e troca de conhecimento e informações é muito comum. Assim, os pais passavam seu conhecimento para os filhos, e depois seus filhos aprendiam com eles. Também era comum as crianças em suas brincadeiras trançarem o cabelo uma das outras, aprendendo assim as tranças básicas desde muito cedo.

Essa tradição foi mantida por gerações e se espalhou pelo mundo com a diáspora africana. Mas foi no início do século passado que as tranças se tornaram populares.

Do Egito à Grécia antiga, passando pelas tranças soltas no Caribe na década de 1970 aos tutoriais das redes sociais nos últimos 15 anos, a trança se perpetua.

A evolução das tranças

Tais Araújo – Foto: Reprodução/Instagram/@taisdeverdade

Os estilos são diversos: as tranças podem ser soltas (as famosas Boxs Braids), Nagôs, boxeadora e outras infinidades de estilo, mas os padrões de tranças permanecem o mesmo. Hoje, considerada um estilo e abraçada por pessoas que jamais as usariam antes, as tranças foram durante anos consideradas uma arte do gueto, de pessoas que não tinham condições de cuidar do cabelo ou para esconder o cabelo, considerado fora dos “padrões”.

Os homens também aderiram ao estilo, principalmente as dread (um penteado étnico derivado das tranças), que virou febre potencializado pelo filme “Pantera Negra”.

Um negócio lucrativo

Djamila Ribeiro – Foto: Reprodução/Instagram/@djamilaribeiro1

Apesar de a maioria das trancistas estarem na periferia, onde geralmente moram e atendem a uma enorme clientela, muitas estão expandindo seus negócios e recebendo status de estrelas tal qual seus colegas cabeleireiros no Jardins, em São Paulo, e Ipanema, no Rio de Janeiro.

Virgínia, sócia do salão paulistano Styllus V&V, responsável por trabalhos para diversos editorais de moda, capa de revista e apresentações na TV, tem entre suas clientes a filósofa e escritora Djamila Ribeiro e a cantora Gabi Amarantos. Sua agenda é concorrida. Há 20 anos no mercado, Virgínia, que trabalha com outras cinco pessoas da família, observa a valorização desses profissionais no mercado. “São qualificadas, respeitadas e disputadas no mercado. Além de preservar uma tradição, a arte é responsável por sobrevivência de diversas famílias”, diz. “No começo não sabíamos o significado do nosso trabalho, um grupo de amigas trançava o cabelo da outra e assim foi surgindo a clientela. Veio a necessidade de especialização e negócio foi crescendo. Hoje é da família”,  competa Virgínia.

Maia Boitrago é outra estrela dessa geração. A trancista carioca, que faz o cabelo de estrelas como a cantora Iza e a atriz Tais Araujo,  tem sua agenda lotada e seu trabalho é uma referência para outras profissionais. Suas clientes mais famosas costumam chamar atenção pelos penteados deslumbrantes desenvolvidos com as tranças. Não é raro cliente chegar em algum dos diversos salões de Madureira, bairro considerado a meca das trancistas no Rio de Janeiro, com imagem de algum trabalho dela no celular como referência.

O mercado de matéria-prima também precisou se expandir. O Jumbo, a fibra sintética responsável pela extensão das tranças, ganhou tamanhos, texturas e cores diversas. É possível ostentar tranças do cor-de-rosa ao estilo mesclado, do criativo ao clássico sem perder o estilo. Além de turbantes, tiaras e enfeites que remetem à arte africana.

Graças à internet e ao trabalho incansável de criadores de conteúdos orgulhosos de sua ancestralidade, as tranças ganharam o destaque e status de arte que sempre mereceu ter.