Fernanda Gomes leva o branco para a Pinacoteca

"Minha arte nasce do que jogam fora", conta a artista

by redação bazaar
Foto: Pat Kilgore

Foto: Pat Kilgore

Por Orlando Margarido

Fernanda Gomes é uma acumuladora. Mas, diferentemente dos obcecados em atulhar a casa por mera fixação, a artista plástica carioca confere status inusual a todo tipo de material descartado recolhido nas ruas. Em sua trajetória de três décadas, pedaços de madeira, plásticos, tecidos e fios diversos promovem um novo significado do conceito de pintura e desafiam a percepção de visitantes em galerias e museus brasileiros e internacionais.

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Agora, é a vez de a Pinacoteca de São Paulo exibir essa confluência de objeto e escultura em obras que lembram telas e podem estar dispostas tanto nas paredes como no chão. A partir do dia 30 de novembro de 2019, o público poderá ainda apreciar outra das características determinantes da produção de Fernanda: o uso constante do branco, sua cor predileta.

Foto: Pat Kilgore

Foto: Pat Kilgore

Apesar da data redonda que permite pensar em retrospectiva, ela prefere não adotar o termo. A mostra estaria mais para um panorama com cerca de 50 trabalhos, embora números, neste caso, não se prestem a uma estimativa precisa. “Meu trabalho é o mesmo desde que iniciei”, justifica. “Há caminhos adormecidos que, em algum momento, acabam sempre por voltar e daí tudo recomeça.”

Será fácil identificar essa recorrência, até porque, em caráter inédito, algumas das peças foram emprestadas de colecionadores, em sua maioria paulistas. E como é habitual, Fernanda adota o método de se fechar no espaço de exposição por um longo período para criar em função do ambiente oferecido. “Nunca expus na Pinacoteca e sei que o prédio tem suas especificidades; são sete salas com luz artificial, e isso exige encontrar o ajuste correto para chegar ao sentido que quero.”

Foto: Pat Kilgore

Foto: Pat Kilgore

Ao lado do branco dominante, dos tons de madeira e do pouquíssimo preto, a luz é preponderante em sua proposta. “O branco sempre foi a cor para mim, mas há vários brancos”, afirma. Daí também a iluminação certa para ressaltar tal fator na busca da experiência sensorial do espectador. Ela mesma nota seu olhar se transformar no cotidiano do apartamento onde mora, no Rio de Janeiro, recheado apenas com sua obra, e, portanto, todo branco. “Não tiro nada dali, pois, ao chegar ao local da mostra, já precisaria reformular tudo; a arquitetura é fundamental para eu pensar a arte.”

O peculiar interior da residência espanta novos visitantes, mas já não surpreende os amigos. Criança, Fernanda desenhava, bolava pequenas esculturas. Mais tarde, incentivada pela prática de costureira da mãe e pelo hobby de marcenaria do pai, foi estudar na Escola Superior de Desenho Industrial. O hábito de juntar todo tipo de refugo e renová-los rendeu a primeira mostra oficial, em 1988.

Foto: Pat Kilgore

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É o período da Geração 80 notabilizada pela pintura e Fernanda até se arriscou num único trabalho a óleo, visto agora pela primeira vez. Desde então, não parou mais de acumular, coisas e exposições. A ponto de ter um segundo endereço também lotado. “É algo incontrolável.” Faz pouco, conta, achou gavetas numa caçamba e, claro, pegou. “Acho inconcebível se desfazer de algo que tem história, feita por um artesão e com marcas do uso, do tempo; minha arte nasce do que jogam fora.”

Exposição Fernanda Gomes na Pinacoteca | De 30/11/2019 a 24/02/2020

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