Cena do filme “Mar de Dentro” – Foto: Divulgação

Por Duda Leite

Fazer cinema é um verdadeiro parto. Muitos projetos precisam de um longo período de gestação, que pode durar bem mais do que nove meses. Alguns levam anos desde sua concepção até chegar às telonas. A diretora gaúcha Dainara Toffoli (que também é uma das diretoras da série “Manhãs de Setembro”, disponível pelo Amazon Prime Video) teve a ideia para seu primeiro longa “Mar de Dentro”, em 2008. Após inúmeras versões do roteiro, a cineasta conseguiu finalmente o financiamento, somente dez anos depois. Com o filme pronto, veio a pandemia e o lançamento teve de ser adiado. Agora, “Mar De Dentro” chega aos cinemas no dia 7 de abril.

O timing desse nascimento, porém, não poderia ter sido melhor. O longa-metragem trata de um tema que está finalmente em pauta: as dificuldades, os preconceitos e a solidão que envolvem a maternidade. No filme, Manoela (Monica Iozzi) é uma publicitária que fica grávida sem planejar e que, a princípio, fica em dúvida se deve ou não ter o bebê.

O filme é inspirado pela experiência pessoal da diretora: Dainara teve seu filho Bernardo em 2006. “Mesmo tendo uma irmã gêmea que já tinha tido filhos, eu sabia muito pouco sobre a maternidade. Não sabia quase nada sobre o puerpério, que é uma das fases mais delicadas, logo após o nascimento”, conta a diretora. “Comecei a me questionar: uma das coisas mais básicas da sociedade é que temos que nos reproduzir. Como era possível que nós, mães, soubéssemos tão pouco sobre o tema? No cinema, praticamente não havia nada sobre isso.”

Cena do filme “Mar de Dentro” – Foto: Divulgação

De fato, os filmes sobre maternidade eram até há muito pouco tempo, geralmente, dirigidos por homens e ligados ao universo do terror, como “O Bebê de Rosemary”, de Roman Polanski, “Alien – O Oitavo Passageiro”, de Ridley Scott, e “Mãe!”, de Darren Aronofsky.

Felizmente, isso está mudando. Um outro exemplo recente de um filme que trata sobre a maternidade em toda sua complexidade é “A Filha Perdida”, estreia na direção da atriz Maggie Gyllenhaal, baseado na obra da italiana Elena Ferrante (disponível pela Netflix). “Achei uma ótima coincidência. Adorei o filme e tem muito a ver com ‘Mar de Dentro’. O fato de eu ter nascido com um útero, não quer dizer que vou me encaixar nesse padrão construído da maternidade”, completa Dainara.

No filme estrelado por Olivia Colman (indicada ao Oscar de melhor atriz neste ano), Dakota Johnson e Jessie Buckley, Colman é Leda, uma professora acadêmica de férias em uma idílica praia numa ilha grega. Sua tranquilidade é logo interrompida com a chegada de uma barulhenta e vulgar família ítalo-americana. Entre eles, quem chama a atenção de Leda é Nina (Dakota Johnson), uma mãe frustrada e sua filha pequena. Isso traz de volta lembranças da juventude de Leda (interpretada por Jessie Buckley) e suas dificuldades de criar suas duas filhas.

Tanto “Mar de Dentro” como “A Filha Perdida” são filmes sensoriais, onde o foco é mais no recorte sobre as personagens do que na ação propriamente dita. Além disso, ambos trazem uma visão muito pouco idealizada da maternidade. “As mulheres que têm filhos se sentem asfixiadas por não poder falar o que estavam realmente sentindo. Você não pode reclamar porque ser mãe é tão especial. Eu adoro ser mãe, mas entendo que é uma opção. Ser mãe não é obrigatório para ninguém”, desabafa Dainara.

Uma das melhores surpresas de “Mar de Dentro” é o fato de Manuela, a protagonista, ser interpretada por Monica Iozzi, mais conhecida por suas incursões em comédias como “Mulheres Alteradas” (2018) e “Turma da Mônica: Lições” (2021). “A Monica é uma pessoa muito exigente. E estava muito querendo fazer coisas diferentes. Ela é muito corajosa e estava justamente com essa questão da maternidade na cabeça”.

Cena do filme “Mar de Dentro” – Foto: Divulgação

A maternidade idealizada passa longe no filme de Dainara. Segundo a diretora, “quando você tem um filho, você perde sua liberdade. E ainda corre o risco de perder seu emprego. Você passa a ser subjugada. Além disso, ainda existe a chance de sofrer violência e ser abandonada”. O filmetrata desses temas de forma direta. Manuela, a personagem de Monica, é quase demitida após o nascimento do filho, Joaquim. “Ainda tem muitos filmes a serem feitos sobre o tema”, completa Dainara.

Outra ligação evidente entre “Mar de Dentro” e “A Filha Perdida” é o fato de ambos os filmes terem sido dirigidos por mulheres. Segundo Dainara, “criar um equilíbrio entre os gêneros virou uma pauta importante para o mercado. Já dirigi muitos documentários, trabalhos de ficção para serviços de streaming, mas, sem dúvida, esse foi meu projeto mais pessoal. Foi um pouco como estar pelada no meio de uma praça”.

Os dois filmes têm sequências importantes que se passam à beira mar. “Somos gestados em um ambiente aquoso. As primeiras formas de vida foram geradas na água. Quis filmar um mar revolto. Afinal, a vida é isso: se esparramar contra as pedras e tentar controlar as tempestades.”

Mães na real

Cena do filme “Mães Paralelas” – Foto: Divulgação

Não é apenas no Brasil que o tema da maternidade está em voga. O novo filme do espanhol Pedro Almodóvar, “Mães Paralelas”, leva novamente o diretor ao universo das mães, em clima de melodrama. Com sua habitual paleta de cores fortes, a produção traz Penélope Cruz (também indicada ao Oscar de melhor atriz), aqui em sua sétima colaboração com Almodóvar, no papel de Janis, fotógrafa que divide o quarto da maternidade com a adolescente Ana, interpretada pela novata Milena Smit.

As duas mães solteiras dão à luz no mesmo dia e, por uma série de acontecimentos rocambolescos, suas vidas ficarão ligadas para sempre. A atuação de Penélope recebeu diversos elogios e rendeu à atriz o prêmio de melhor atriz no último Festival de Veneza.

Uma boa notícia para os fãs do diretor é a participação da diva fashion Rossy de Palma, no papel de Elena, a amiga editora de Janis.