Amanda Abranches: do barro viemos, ao barro voltaremos

Criadora da EVA Cerâmicas, a artista é o retrato de uma geração que faz do trabalho com argila seu negócio

by redação bazaar
Foto: Reprodução/Instagram/@eva_ceramica

Foto: Reprodução/Instagram/@eva_ceramica

Por Ligia Krás

Quando perguntam a Amanda Abranches sobre seu trabalho com cerâmica, um botão de memórias e sensações familiares das mais diversas é acionado. Pensar numa possível afinidade provinda de herança genética, quando uma tia pintava magistralmente as porcelanas mais lindas que ela já viu, é uma das infinitas respostas que lhe vem à cabeça quando ela analisa como pode passar tanto tempo sem saber o quanto amava esse ofício.

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Jornalista de moda e produtora de editoriais, ela sentiu aquela vontade absurda de desacelerar quando foi mãe, e, consequentemente, as demandas e prioridades mudaram radicalmente, fazendo-a questionar se o retorno ao antigo mercado de trabalho contemplaria seus anseios e novas formas de vida. Por pura curiosidade, a cerâmica entrou da vida dela exercendo fascínio com tanta simplicidade do material e a chance de dar formato ao que viesse à sua cabeça.

Foto: Divulgação

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“Claro que fui aprendendo que nada na cerâmica é fácil, formas, plasticidade e esmaltes, enfim, materiais são bem difíceis no Brasil. Mas aos poucos fui entendendo, e quanto mais entendia, mais apaixonada eu ficava”, conta a artista paranaense em bate-papo com Bazaar. “Lembro que era um sentimento constante de finalmente caber no mundo, finalmente ter encontrado uma coisa que me fizesse querer produzir em tempo integral. Cada etapa era uma descoberta, lembro de chorar de emoção ao ver o forno se abrindo e os esmaltes fundidos: ferro, cinzas… a alquimia resultava numa cor linda, cheia de vida. Me sentia produtiva, criativa e que de alguma maneira eu estava conectada com a terra. Comecei a pensar nas necessidades que criamos para viver e me questionar sobre o que realmente era essencial”. A pergunta, inclusive, se tornou um dos pilares da marca e aparece nas criações, das peças de cozinha ao formato das joias, entre outros objetos.

Foto: Reprodução/Instagram/@eva_ceramica

Foto: Reprodução/Instagram/@eva_ceramica

 

Vivendo da sua marca EVA Cerâmicas ( @eva_ceramica ) há menos de um ano, a jovem artesã se surpreende quando alguém pergunta se sua escolha aconteceu do nada. “Foi um processo lento e, nos últimos anos, árduo e dolorido. Lembro logo da pérola quando penso nesse meu processo. Deve doer pra caramba! Mas no final da dor e da rejeição lá está ela, linda e com muito valor. Pode ser que a cerâmica seja minha pérola. Isso porque me vejo em cada peça que faço, vejo um traço, um defeito, uma qualidade, quase que num espelho, elas ajudam a contar a minha história, ajudam a descobrir todos os dias um pouco mais sobre quem eu sou”, explica Amanda.

Foto: Divulgação

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Divisor de águas

Foi durante uma viagem com o marido à Punta Ballena, no Uruguai, que Amanda diz ter sentido um “estalo” que fez toda diferença no seu histórico. Ao visitar a Casa Pueblo, residência de veraneio construída pelo artística plástico Carlos Páez Vilaró (e hoje um museu e hotel), e se deparar com a exuberância do local cheio de formas pintadas de branco e moveis de pedra, ela diz ter a sensação de entrar no ninho de um pássaro joão-de-barro.

“Diante de toda aquela simplicidade, com os olhos voltados para a minha realidade eu só pensava: ‘será que é preciso tanta coisa assim para viver? Será que tanto móvel, lá em casa, é realmente necessário? O que eu realmente preciso para estar viva? Tanto conforto? Qual a definição de conforto para mim?’. Perguntas como essas me golpeavam a cada passo que dava dentro da casa como um rodamoinho de desconstruções vitais. Depois de lá, nada mais me importava muito, não sentia vontade de comprar nada, e a impressão que tinha era que tudo era extremamente desnecessário”.

O olhar voltado para o consumo sustentável ficou mais apurado, e 90% do que Amanda compra hoje em dia para manter sua marca, é feito em Londrina, onde está localizada, pelas mãos dos pequenos artistas e pequenos empresários, como ela explica em nossa conversa: “Isso remete à ancestralidade, trocas de saberes e de produtos feitos a partir da necessidade identificada por cada indivíduo, auxiliando na coletividade de forma saudável e simples. Me transporta para uma época em que não se precisava de muito para viver e que uma botija de barro, por exemplo, dava conta de muita coisa. O nome EVA vem desse primitivismo quase que automático (de acordo com o criacionismo) que esse nome carrega”.

O processo de reaproveitamento, no caso, passa pela argila sobressalente que é reciclada e vira material novo; o pó, que é resultado da etapa da lixa, vira cola para juntar partes de outros produtos, e assim sucessivamente. As ferramentas também são sempre muito improvisadas de acordo com as necessidades que vão surgindo. Até as embalagens são fruto de reaproveitamento de tecido de roupas antigas ou que não tem mais condições de uso.

Foto: Reprodução/Instagram/@eva_ceramica

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Novo boom

É impossível contar a história de Amanda Abranches sem parar e pensar nos sinais do tempo. Em um período dominado por super tecnologias, inteligência artificial e imediatismo, cada vez mais as pessoas, principalmente o público conhecido como “jovem adulto”, busca refúgio no trabalho manual para fugir da loucura e tensões do dia a dia em metrópoles como São Paulo.

Quem participa de cursos e grupos fechados (cada vez mais lotados) em casas de vilas charmosas, afirma que a prática com argila ajuda a se desconectar do mundo e se voltar para o seu interior, ignorando tudo que acontece lá fora por algumas horas. A necessidade de se desconectar, neste caso, se junta à dedicação e tempo para alcançar o resultado desejado por quem está moldando um objeto, que pode levar semanas para ficar pronto. Há quem diga que, só de pegar no barro e sentir o cheiro da terra molhada, já fica relaxado, daí o sucesso da arteterapia nos dias de hoje.

Com o boom do handmade (feito à mão), principalmente por parte dos Millennials, não é difícil entender porque, em meio à perspectiva de futuro dominado por inteligência artificial e similares, o trabalho com cerâmica e argila se torna uma eficaz válvula de escape. No mínimo, quem experimenta, acaba pensando da mesma forma que Amanda ao criar a EVA: “Como passei tanto tempo sem perceber esse lado tão importante aqui dentro? Talvez eu estivesse ouvindo mais o barulho externo do que o interno”.