Demi Lovato – Foto: Reprodução/Instagram/@ddlovato

Em maio, depois de um longo tempo de reflexão segundo elu mesme, Demi Lovato se autodeclarou de gênero não-binário. Ou seja: elu não se identifica como mulher nem como homem. Em inglês, costuma-se usar o pronome “they” no lugar de “she” ou “he” para não-bináries; em português, convencionou-se “elu” em vez de “ele” ou “ela”.

Essas manhas da linguagem neutra são assimiladas aos poucos por meios de comunicação e pela própria população, e casos com pessoas públicas como o de Demi ajudam a questão a ser mais debatida e esclarecida. Entre celebridades, em 2019 tivemos o mesmo anúncio da parte de Sam Smith, por exemplo.

Off-White – Foto: Getty Images

E Natália Lara, apresentadora e narradora do canal SporTV, foi elogiada pela maneira como usou a linguagem neutra com naturalidade em partida de futebol entre Canadá e Japão na Olimpíada de 2021: Quinn, meio-campista canadense, também se declarou não-binárie no ano passado. Aliás: Quinn é ê primeire não-binárie declarade a ganhar medalha de ouro em Olimpíadas.

Se esse papo de “gênero é construção social” lhe parece acadêmico demais, pense outra vez. Para a geração Z, isso já não é uma questão e sim uma realidade com a qual elus lidam de maneira natural. Não-binarismo, gênero fluido ou agênero fazem parte da vida delus – do discurso e também de suas autoimagens e vestuário. O look não se prende a convenções de gênero do tipo “saia é para mulher e gravata é para homem”, mas também se diferencia do hoje esquecido unissex, uma ideia ainda conectada com a existência de dois gêneros e uma estética que nivelava ambos em minimalismo e básicos.

O agênero simplesmente derruba a barreira do “para elas” e “para eles” nas lojas e e-commerces, fazendo quem consome ver aquelas peças como roupas que qualquer pessoa pode usar, com modelagem para corpos variados.

O look que abriu o desfile de inverno 2015 da Gucci – Foto: Divulgação

Alessandro Michele, em sua estreia na direção criativa da Gucci em 2015, é a principal influência dessa nova abordagem entre as marcas de luxo. O interessante é que esse primeiro impacto de sua visão aconteceu mais em matéria de styling: o criador foi convidado a repensar a coleção masculina de inverno 2015 que já estava pronta sob a direção de Frida Giannini, antecessora dele. A reformulação express, que precisou ficar pronta em uma semana, trouxe androginia, combinação de cores inusitadas, laços, renda e um ar meio dândi meio brechó-hipster, anti-herói romântico franzino.

De primeira, pareceu que isso seria apenas a visão de Michele para a linha masculina da marca. Ledo engano: a moda feminina também era mergulhada no agênero, transbordando um amor pela moda que transcendia divisões.

O desenvolvimento dessa estética “micheliana” resultou em um desfile só por temporada para a Gucci, apesar da divisão nas lojas seguir existindo (a do JK Iguatemi, por exemplo, privilegia a moda para eles).

Vivienne Westwood – Foto: Divulgação

Entre as novas coleções das demais labels do mercado de luxo, o guarda-roupa sem gênero já parece ser uma realidade, tanto nas peças como na imagem de moda que apresentam.

Prada – Foto: Getty Images

Peças como o coletão de tricô da Opening Ceremony, o paletó retão e de manga arregaçada da Prada, o corset que acintura a alfaiataria de leve em Vivienne Westwood, a jaquetona com capuz e ombro largo da Off-White, a bata da Palomo Spain, a saia-envelope-acolchoado da Eckhaus Latta – são interessantes, estilosas e não cabem em categorias.

Ludovic de Saint Sernin – Foto: Divulgação

Estilistas mais independentes e autorais, como é o caso do belga Ludovic de Saint Sernin e do inglês Charles Jeffrey com sua Loverboy, apresentam looks ainda mais livres de amarras e convenções de maneira natural: é a turma delus, um pessoal que tem sede fashionista incansável e nem chega a tomar conhecimento de divisões ou imposições sociais.

Loveboy by Charles Jeffrey – Foto: Divulgação

A moda não só está falando sobre novas visões a respeito de gênero: ela está conversando com essas realidades para falar com gerações mais jovens. E, algumas vezes, está gritando na cara de quem ainda não percebeu: gêneros são construções sociais, sim. E não são só dois!