Foto: Alex Falcão

Nada mais desesperador do que ver os cabelos literalmente irem pelo ralo. Ou se dar conta de um afinamento súbito do fio, que já não exibe mais a exuberância de antes. Pode ser idade, estresse, genética, poluição ou a combinação de todos esses fatores. Adicione a isso a perda de cabelo sofrida pelas vítimas da Covid-19. O fato é que o mundo vive uma epidemia de queda capilar e, de repente, todos os olhos estão voltados para o couro cabeludo. Mesmo antes da pandemia, a indústria de restauração capilar já estava crescendo – projeta-se que atinja mais de US$ 12 bilhões em 2026.

Apesar de tudo, ainda nos sentimos carentes de soluções definitivas para o problema – principalmente para as mulheres, que nem sempre são candidatas a todos os tratamentos atualmente disponíveis para os homens. Dos dois medicamentos aprovados contra a calvície, minoxidil e finasterida, apenas o primeiro também é aprovado para mulheres.

A boa notícia é que uma promessa alentadora está a caminho – e bem próxima de desembarcar nos consultórios médicos daqui: uma nova geração de testes genéticos para calvície.

Eles já existem, mas o que vem por aí é infinitamente melhor. Atualmente, testes feitos com a saliva do paciente detectam genes relacionados à queda capilar. “Hoje no Brasil temos apenas um teste validado que consiste na tendência de ter um receptor androgenético e sobre a possibilidade de o paciente de responder a uma droga, que é finasterida, que bloqueia o DHT”, explica a tricologista Ana Carina Junqueira, uma das principais especialistas em calvície do País. Ela passou seis anos à frente das pesquisas clínicas em dermatologia nas renomadas Mayo Clinic e na Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos.

E vem dela a boa nova. “Estão chegando novos testes no Brasil com combinações específicas de todas as variantes que podem afetar o cabelo, não só a genética herdada de pai e mãe, mas também a genética da pessoa com relação a fatores que podem alterar a formação do cabelo, como por exemplo, a tendência inflamatória, e a assimilação e adaptação da vitamina D, que são todos fatores que fazem parte da metabologia e fisiologia do fio.”

Conhecendo os gatilhos, é possível atacar o mal precocemente e com mais assertividade. Com essas informações sobre cada paciente, o tratamento fica muito mais preciso, podendo chegar a 80% de resposta positiva.

Foto: Alex Falcão

Em outras palavras, será possível medir, para além da herança genética, as influências internas e externas sobre a formação, adaptação e desenvolvimento dos cabelos ao longo dos anos: aqueles que tendem a afinar, os que têm mais porosidade, as pessoas propensas a ter fios brancos mais cedo. “Já existe uma universidade federal do País validando diversos desses testes, que foram iniciados na Coréia e tiveram uma grande aprovação e reconhecimento mundial pela qualidade e especificidade e, até o final do ano, chegam ao Brasil”, afirma Ana Carina.

O próprio Instituto Brasileiro de Estudos e Pesquisas em Medicina Capilar, que a médica comanda, tem um teste com desenvolvimento exclusivo com praticamente todas as variantes que podem afetar o fio do cabelo. Ela e a dermatologista Ana Lucia Junqueira juntaram todas as evidências científicas publicadas ao redor do mundo, com a experiência de mais de 40 mil casos atendidos. “Resolvemos escolher aqueles fatores do corpo que influenciam o cabelo e quais testes genéticos valeriam serem feitos sobre eles, para além da calvície genética”.

Por ser uma doença multifatorial, a calvície é difícil de curar. “Ainda não há cura para o mal. Há terapias em desenvolvimento. A que mais se fala que poderia chegar próximo à cura é a terapia com células-tronco, porém ainda está em estudo”, afirma. Daí a importância do tratamento precoce ou prevenção da evolução do problema. Nesse caso, o arsenal conta com medicamentos que bloqueiam uma determinada enzima, reduzindo a quantidade de hormônio DHT (dihidrotestosterona), responsável pela miniaturização, enfraquecimento, afinamento e dificuldade de crescimento dos fios. Eles podem ser usados na forma oral, injetável local (intradermoterapia) ou de uso tópico (loções).

Mais recente, a imunoblindagem dos fios tem revelados resultados animadores. Trata-se do uso de substâncias que agem no sistema imunológico, principalmente reduzindo o excesso de células inflamatórias ao redor da raiz dos folículos. Isso reduz o dano à estrutura do fio e a chance de queda precoce. Nessa lista estão antioxidantes naturais como cúrcuma, gengibre, resveratrol, assim como vitamina D, vitamina C e zinco, entre outros. Essa foi, aliás, uma das conquistas resultantes da epidemia de coronavírus: “Como toda doença nova, ela estimulou a pesquisa de novas terapias nunca estudadas antes, devido à necessidade aguda de tratamentos eficazes, ou seja, impulsionou algumas ideias que talvez demorariam muito tempo para sair do papel.”

Esses tratamentos prolongam o tempo que o paciente manterá poucos ou nenhum sinal da calvície, permanecendo com boa densidade capilar por muito mais tempo (por anos até) do que quando não se faz nenhum protocolo. Por exemplo: um paciente que sem tratamento começaria a apresentar “entradas” e rarefação capilar aos 30 anos de idade, com o tratamento poderia possivelmente apresentar os mesmos sinais somente por volta dos 45.

A pergunta que não quer calar: esses novos testes poderão ajudar a provar a teoria de que a calvície vem do lado materno? “Não, os testes não apontam de onde vem os genes, mas sim se o paciente já possui certos deles. O gene AR, encontrado no cromossomo X, é um dos mais estudados e um dos possíveis genes envolvidos na calvície. Como o cromossomo X é o que os homens herdam da mãe, existe a crença de que a calvície genética vem do lado materno. Entretanto, a ciência ainda não determinou com exatidão as alterações genéticas exatas que conferem maior tendência à calvície”, sentencia.