Guilherme Terreri – Foto: Carlos Sales

Guilherme Terreri, de 30 anos, que dá vida à drag queen Rita von Hunty, compartilha sua rotina na pauliceia, pautada por discussões políticas e luta pelos direitos LGBTQIA+. Bazaar passou 24 horas com ele. Saiba tudo sobre a sua rotina:

8h

“Não sou afeito à rotina, o que significa que meus horários variam de acordo com meus compromissos. Como professor, dava aula às 7h, mas acordava às cinco e pouco. Normalmente, acordo às 8h, me atualizo das notícias. Meu primeiro movimento do dia é entender o que perdi enquanto estava dormindo, o que é supertriste. As fontes que estou mais habituado são de um jornalismo mais engajado, político, e a maioria dos meus amigos trabalha com informação e difusão de conhecimento. Uma passada nos Stories, no Instagram, me ajuda a ver o que preciso ler com mais profundidade. Passo a primeira hora da manhã nessa correria por informação.

9h

Na pandemia, fiquei muito amigo do meu vizinho João, que mora no andar de cima. A gente toma café junto às 9h e depois faz uma atividade física, como ioga, sai para correr ou faz aqueles treinos rápidos de aplicativo, que terminam por volta das 10h. Sou vegano, tomo café preto, como um pedaço de fruta – banana, maçã ou laranja – e pão com alguma coisa. Agora, estou na fase de homus (feito de grão-de-bico). Depois, começo o trabalho e, uma vez por semana, terapia.

Tem dias que preciso estudar sistematicamente algum tema, escrever, pesquisar. Se tenho que entregar a coluna à “Carta Capital”, escrevo na véspera, durante a madrugada, que é meu horário mais produtivo intelectualmente.

14h

Quando tem mais silêncio, consigo me concentrar melhor. Até as 14h, que é o horário em que almoço, organizo o que preciso entregar. Às vezes, outro amigo, o Nico, se junta para cozinhar. Passei a maior parte da pandemia com essas duas pessoas, que estão na transição para o veganismo.

Compro produtos orgânicos, de pequeno produtor. Minha dieta depende, majoritariamente, do que vai vir na cesta de produtos. Hoje, por exemplo, almocei arroz de forno com carne de jaca verde, batata palha e farofa de pinhão. Dou uma pausa para o preparo da refeição e volto para o trabalho. Louça, tento lavar assim que sujo, senão vou acumulando e, quando vou ver, estou usando colher no lugar de garfo (risos).

Meu novo projeto é uma vídeo-coluna chamada “Palavras-Chave” com um convidado por episódio. Sou colunista do “Saia Justa”, no GNT, e ainda tem o “Tempero Drag”, com vídeos semanais em meu canal no YouTube. Para além destes trabalhos fixos, tenho um curso que viaja o Brasil e está parado por causa da pandemia, e o programa “Drag Me as a Queen”, do E! Entertainment Television. No fim do ano passado, rodamos a terceira e quarta temporadas (ainda sem previsão de estreia). Ainda tem um novo projeto para a televisão que está em fase de reuniões. Se estou muito cansado, tiro um cochilo, dependendo de como foi o dia até aquele ponto. Coisa rápida!

16h

Guilherme Terreri – Foto: Carlos Sales

Dou aula particular para instituições, universidades ou empresas. Mais no esquema de palestra e workshop. Neste Mês da Diversidade, participo de algumas lives no Instagram. Desde a criação da Rita von Hunty (em meados de 2013), sempre adotei um tipo de humor político. Reflexo de como me vejo no mundo. Gosto de discutir política, falar sobre educação. Agora, aos 30, vejo como projeto de vida. O canal começou a receber outras drag queens para conversar sobre vida e história LGBTQIA+.

As pessoas acham que para falar de política, é preciso falar de partido, do Senado e da Câmara. O importante nesse momento é pensar qual é a centralidade da nossa luta enquanto LGBT+. Formação e organização de uma rede de solidariedade, financiar uma casa de acolhimento (como a Casa Chama, Casa 1, Casa Nem)… Minha luta política, para além da movimentação intelectual, tem sido manter a minha comunidade organizada. Doar dinheiro para quem conheço, ajudar meus amigos professores, intelectuais e artistas e que não vão conseguir pagar aluguel ou colocar comida dentro de casa.

Metade dos brasileiros vai passar por situação de insegurança alimentar nos próximos meses. A gente está atravessando um cenário de agravamento do empobrecimento e da fome no Brasil.

18h

Com os meus amigos, só tenho discussões profundas ao vivo. À distância, sou um completo idiota. Se abrir a janelinha de conversa nos aplicativos, tem desde meme de gatinho à recomendação de vestido. Isso me faz desopilar! Ah, também sou pai de planta. A gente que trabalha com a intelectualidade, precisa ter um refúgio de idiotice, de ser besta, bobo, pueril…

Como drag queen, vivo passando coisa na cara (na rotina de skincare). Mil massagens, esfoliação. Em uma semana comum, me monto uma ou duas vezes. Neste Mês da Diversidade, vai ser todo dia. Dependendo da montação, demora cerca de duas horas quando o look é mais trabalhoso. Na rotineira, levo pouco mais de uma hora. André Góes é quem faz meu cabelo. O resto, faço por conta.

20h

Só assisto TV se combino com o João e o Nico, nos fins de semana, para ver “The Handmaid’s Tale” ou “Pose”, que voltaram para novas temporadas. Nunca por conta própria. Não paro para jantar nem faço outra refeição. De vez em quando, como um pedaço de pão, uma fruta ou faço um chá. Quando estou com ritmo de trabalho menos intenso, leio antes de dormir e, para relaxar, tomo um banho de banheira. Senão, vou trabalhando até 1h, quando me deito.

Existem lugares da rotina que me aprisionam e me matam e estou interessado em permanecer vivo e atuante. Não funcionou para mim? Abro mão das coisas e das pessoas. A gente é muito treinado para insistir no que nos faz sofrer. Desde que comecei a ter um contato maior com a psicanálise, estou interessado em sofrer melhor, pelo que vale a pena. Sofrer como sintoma, e não como escolha, é uma besteira. A Rita me ensinou a descansar em vez de desistir.