Mariana Ximenes usa blusa sem alça Hering, calça e botas Miu Miu – Foto: Cassia Tabatini, com direção criativa de Camila Bossolan, edição de moda de Rodrigo Yaegashi e Stephanie Bekes Camargo, beleza de Liege Wisniewski, agradecimento Nilta Perucas, manicure Rose Luna, produção executiva Bruno Uchôa e tratamento de imagen VW Retouch

Por Carol Hungria e Silvana Holzmeister

A Bazaar de março traz um tema muito atual para discussão: o Brasil é o único país do mundo em que o decote “sem alça” foi batizado de “tomara que caia”, um termo sexista que não cabe mais no vocabulário dos dias atuais.

Não há uma data de consenso sobre quando o decote sem alça foi criado, mas uma pesquisa realizada por Bazaar tem como registro a década de 1930, quando a atriz Libby Hollman foi fotografada com um vestido do gênero, do estilista Mainbocher, marcando o primeiro registro oficial dele na moda.

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Ainda na década de 1930, a defensora fervorosa da moda sem alça foi Madame Grés, criadora do chamado “vestido deusa”, inspirado em colunas gregas e romanas, utilizando complexas técnicas de pregas, franzidos e drapeados.

Mas foi durante e ao final da Segunda Guerra Mundial que o modelo ganhou força real, a começar pela famosa aparição no figurino do filme “Gilda”, estrelado por Rita Hayworth em 1946. Apesar do encanto despertado pelo look hollywoodiano em muitas mulheres, a novidade provocou a ira de grupos conservadores e religiosos, que chegaram a promover campanhas contra o uso de roupas “indecentes”, que incluíam, ainda, a roupa de banho de duas peças, o biquíni. Para se ter ideia da polêmica, nos anos 1950 o exército dos Estados Unidos chegou a proibir que as noivas de seus oficiais escolhessem o decote para seus vestidos de casamento.

A corrida espacial envolve a criação de tecidos tecnológicos, e a moda ditada pela alta-costura não combina mais com o estilo de vida funcional, enquanto o ready-to-wear leva a moda para um novo nível de popularidade. O prêt-à-porter surge entre o fim da década de 1960 e início dos anos 1970, um período intenso em lançamentos de “roupas prontas” e a adoção definitiva dos sistemas de manufatura sofisticados dos Estados Unidos. A alta-costura se tornava irrelevante para os jovens rebeldes e politizados dos anos 1960, enquanto jovens estilistas como Yves Saint Laurent criavam suas próprias butiques, voltando a moda para as ruas.

O decote sem alça deixa então de ser exclusivo dos vestidos de festa ultratrabalhados, e ganha modelos simples e acessíveis nos anos 1970, popularizado por nomes como Roy Halston Frowick. O sem alça também foi recurso fashion essencial para o movimento punk. A capa do segundo disco da banda Roxy Music, de 1973, “For Your Pleasure”, foi assinada por Anotny Price. O tom visual é definido pelo glamour noturno, com um conjunto de couro fetichista marcado pelo bustiê tão rígido na estrutura que se move independentemente do corpo, revelando a parte superior do seio.

Novamente o cinema deu um empurrãozinho para o decote na década de 1980. Desta vez, foi Julia Roberts e seu longo vermelho em “Uma Linda Mulher”. Na sequência, “Sex and the City” não somente abriu espaço para que questionamentos femininos ganhassem espaço e se transformassem em fenômeno de mídia como ajudou a transformar a lingerie aparente em recurso fashionista, intensificando ainda mais o recurso strapless.

Ao reviverem e reinterpretarem os espartilhos históricos, estilistas como Vivienne Westwood, Jean-Paul Gaultier e Alexander McQueen transformaram um item de restrição e sexualização em uma projeção fortalecedora e potente da identidade feminina, indiretamente fortalecendo bandeiras do movimento feminista.

Sua vertente contemporânea abre espaço para o questionamento, na moda mundial, de termos carregados de significados pejorativos para designar peças de roupas. Na língua inglesa, estão sob este crivo palavras como a camisa “wife beater” (ou espancador de mulher, por aqui, machão).

Em sua nova campanha, a Hering propõe substituir o termo “tomara que caia” por blusa sem alça, seguindo a tradução precisa de “strapless”. Bazaar endossou a campanha convidando Mariana Ximenes para estrelar a capa e um ensaio vestindo a peça. “É uma forma de falar sobre respeito à mulher. Por que não abolir esse termo, por que tem que cair? Qual é essa intenção machista? E vamos pensar em todos esses termos que incitam machismo e sexismo. A transformação é no dia a dia”, afirma a atriz.

Repensar termos pejorativos, machistas e sexistas, cresce em importância quando se leva em conta estatísticas que mapeiam o potencial de violência contra as mulheres. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 26% dos brasileiros acreditam que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”.