Natasha Ramsay-Levy – foto: Divulgação

O período de total confinamento provocado pela Covid-19 dividiu a sociedade. De um lado estão os que procrastinam. Do outro, quem enxerga nessa pausa forçada a oportunidade para sacudir a poeira e dar a volta por cima, driblando o distanciamento com boas ideias.

De Paris, onde a reabertura começou em junho, Natacha Ramsay-Levi, diretora criativa da Chloé, conta à Bazaar que ficar quatro meses trancada em casa redefiniu seu processo criativo e também o de sua equipe. “Passamos da repetição ao inesperado”, conta.

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O resultado vai aparecer no resort e dará corpo ao verão 2021, que deverá ser apresentado na semana de moda parisiense, marcada para o final deste mês. “Foi difícil criar durante o confinamento, mas a Covid-19 nos deu, ao mesmo tempo, oportunidades e dificuldades para repensar a forma como trabalhamos”, reflete.

A bolsa Tess do inverno 2021 – Foto: Divulgação

O home office, conta, acabou criando um ambiente para sentir o sonho, as intuições e as emoções. “Que são altamente necessários para criar”, ressalta. Seus insights reforçam a atemporalidade das peças como recurso sustentável. “São roupas novas, com ideias fortes e códigos que já existiam (na marca)”, descreve.

Segundo ela, mais do que nunca, a moda tem um papel forte a desempenhar. Esse posicionamento começou a ser visto no resgate da alfaiataria soft e dos vestidos românticos, DNA da marca, para o verão 2020 da Chloé e que, agora, ganha o reforço de uma visão influenciada pela pandemia para ser reinventado.

A valorização dos códigos da label para driblar a sazonalidade das tendências ressalta também a qualidade da matéria-prima e enfatiza processos artesanais, aspectos cada vez mais importantes para as grifes de luxo. “Existem caminhos para uma economia verde baseada em tecnologias simples, limpas e seguras que podem fazer uma transição em resposta às crises econômica e ecológica decorrentes da superexploração dos recursos naturais”, diz ela. “Espero que muitas marcas sigam essa evolução. Não estou dizendo que encontramos a solução, mas tentamos abordá-la enfrentando o problema”, diz.

Acessórios da coleção de inverno 2021 – Foto: Divulgação

Voices

Criada nos anos 1950 pela cosmopolita e empreendedora Gabriella Aghion, em Paris, a Chloé desde o início focou em mulheres modernas ao propor silhuetas descontraídas feitas com tecidos de alta qualidade. Essa identidade acabou se estendendo a outros projetos, como o “Voices”. Com a fronteira entre os espaços doméstico e profissional ficando repentinamente confusa, especialmente para as mulheres, Natacha conta que tem sido interessante abrir espaço para vozes femininas. “Mais do que nunca, precisamos de união”, sentencia ela.

Depois de enfrentar o microfone na série de podcasts da marca, a diretora criativa passou a encarar lives no Instagram para conversas com nomes como o da atriz Kate Bosworth e Patty Alleman, conselheira sênior de gênero e desenvolvimento da Unicef. “Fico feliz que a Chloé possa dar espaço para mulheres que são uma voz especial em suas áreas de atuação”, diz a estilista.

Chloé, inverno 2021 – Foto: Divulgação

Transitando entre questões que vão de grandes debates contemporâneos a manifestações culturais, a ideia, explica, é que a proposta coloque em prática iniciativas da marca através de colaborações. “A experiência de acolher diferentes personalidades é uma forma de fomentar a criatividade coletiva.”

Focado na expressão do feminino, o “Voices” reúne mesmo uma agenda variada. Além de bate-papos, já exibiu produções como o vídeo “In Sirocco”, com a atriz e bailarina Sofia Boutella, aula de ioga com a modelo Hyun Jeong e set com Parvané Barret, a modelo e DJ que tem entre seus seguidores Lil Miquela, a mais poderosa influenciadora criada digitalmente, com mais de 2,5 milhões de fãs.

Chloé, inverno 2021 – Foto: Divulgação

E com a sociedade ainda vivendo um cenário distópico, as marcas de moda têm um papel importante a desempenhar. “Temos que ser honestos, humildes e transparentes na forma como criamos, produzimos, nos organizamos e levantamos nossa voz. Os consumidores esperam que sejamos responsáveis e engajados”, diz a diretora criativa, para quem é impossível seguir em frente com olhos e ouvidos fechados para as lutas sociais e sem observar as grandes mudanças que estão em curso.

“Mas elas não acontecerão da noite para o dia. Não podemos simplesmente reivindicar uma mudança, estamos em um movimento real de moldá-la, de renovar todo o processo. E estamos fazendo isso agora”, explica.

Girls Forward

Para fazer acontecer, a Chloé lançou, em março, no Dia Internacional da Mulher, outro projeto de empoderamento feminino. A marca francesa se uniu aos programas de igualdade de gênero da Unicef com o “Girls Forward”, que tem o objetivo de promover habilidades tecnológicas e empreendedoras para cerca de 6,5 milhões de meninas e adolescentes em países como Jordânia e Marrocos, tendo como embaixadoras as atrizes Katie Holmes e Lucy Boynton.

Chloé, inverno 2021 – Foto: Divulgação

“Esta pandemia nos ensinou pelo menos uma coisa: não podemos viver independentemente dos outros. Precisamos nos unir, pois entramos em um período de vulnerabilidade”, avalia Natacha, acrescentando que vê a necessidade de criatividade colaborativa e iniciativa de readaptação nesse momento de transformação. “É um processo com etapas diferentes. Para mim, e para nós, significa aumentar a conscientização e apoiar os direitos das mulheres, a igualdade de gênero e a inclusão, enfrentando a crise ecológica e social através de uma mudança real.”

A icônica bolsa Marcie – Foto: Divulgação

No nível pessoal, Natacha conta que o distanciamento social jogou luz em valores que já existiam em um plano secundário, mas que agora se mostram primordiais: “aceitar a minha própria vulnerabilidade e entender que existem outras, colocar humildade em tudo o que fazemos e torná-la um valor prioritário – o que é muito contraditório com o que a moda normalmente representa -, é no que eu realmente acredito”.