Valentino – Foto: Getty Images

Por Juliana Lopes

Eu poderia dizer que a moda anda muito engraçadinha se Rita Lee não tivesse gravado em 1983 uma música chamada “Cor de Rosa Choque”. Seria uma afronta ao feminismo lúdico da artista. Com essa canção, ficou claro na época que as mulheres não são bobas, não “fogem à luta”, não vivem “só de cama”, não são “infantis” e nem “delicadas” obrigatoriamente. Só se quiserem. E tinha ditadura militar no Brasil, viu? Afrontosa, a Rita Lee. Mas toda disfarçada de fada da música, muita gente não percebeu a pimenta rosa.

Burberry – Foto: Getty Images

A moda do feminino infantil confundido com a cor rosa existe apenas desde o século passado em dez entre dez lojas de produtos para bebês. E até hoje o rosa, quando não o azul, explode em bexigas de chá revelação, e está tudo bem. Só queremos relembrar que esse mesmo rosa “bebê” virou rosa “millenial” quando as feministas jovens pós-instagram começaram a usar a cor para ir trabalhar no coworking – sem baixar a crista.

Versace – Foto: Getty Images

Entrando no túnel do tempo, o rosa era uma cor masculina até o final do século 19 (aprenda, ministra). O rosa, minhas caras, vem do vermelho, cor de sangue, cor de atitude e, consequentemente, cor masculina. O rosa já caiu no homem, na mulher, em trans, homossexuais, feministas, religiosas, madames, influencers, boneca Barbie, carro da boneca Barbie, NFTs da Balmain e sim, em tantas passarelas.

Chanel – Foto: Getty Images

Quem viu o desfile da Valentino e teve a memória corroída pela pandemia pode ter comentado: “o rosa voltou!”. O rosa não voltou, o rosa sempre ficou zanzando à espera de um significado. E quem melhor que a moda para dar significado às cores que usamos? O estilista Pierpaolo Piccioli, da Valentino, ao escolher propor um desfile quase que totalmente rosa pink, rosa-choque-Rita-Lee, rosa fúcsia Thierry Mugler, rosa Barbie, está simplesmente nos presenteando com o que precisamos. Precisamos de algo vivo, algo que nos pulse, algo que nos dê vontade de brincar ou de aparecer, algo que nos acorde de um sonho ruim, um pesadelo, uma pandemia.

O rosa de Pierpaolo foi também um chamado à paz em meio à guerra – nas próprias palavras dele, “o amor é a resposta, sempre”. Rosa é amor.

Lanvin – Foto: Getty Images

Existe algo mais cinza mesclado comfy que uma pandemia? Que tristeza. Cores de mantas velhas, desgastadas. Lençóis secando no varal enquanto estamos em casa assistindo às nossas plantas. Luminárias suaves para não surtarmos, olhos fechados para meditar. Tudo pastel para acomodar. Chega, gente, agora queremos choque. A dopamina. O chacoalhão nos olhos. Aquela roupa que antes diríamos que íamos enjoar. Pode reparar: ninguém pintaria a parede do próprio quarto com o rosa Valentino. Mas quase todas sairíamos de total look rosa, cai-na-tinta. Como Kim Kardashian, Zendaya, Gigi Hadid. Não queremos mais passar o dia olhando paredes.

Jacquemus – Foto: Getty Images

Fazendo jus à cronologia das modas, vamos falar de Jacquemus que apareceu antes de Valentino no momento pós-pandêmico com pontos de rosa em sua passarela. A vontade de algo gritante já estava despontando ali, mas talvez ainda estivéssemos em coma. Jacquemus abriu em dezembro de 2021, em Paris, uma loja “all pink” que funcionava 24 horas. Faz todo sentido! Depois de estarmos em quarentena infinita, queríamos estar infinitamente em outro lugar que não o da quarentena. Uma loja por exemplo. Olhando uma vitrine cheia de coisas coloridas que pipocam e tiram nosso sono pandêmico. Jacquemus se inspirou em maquininhas que vendem coisas. Nada mais disponível do que essas maquininhas: você passa a qualquer hora, aperta o botão, e alguma coisa sai de lá.

Miu Miu – Foto: Getty Images

Talvez seja sobre brincar. Não necessariamente chocar os outros, mas chocar a nós mesmas. Provocar nosso próprio guarda-roupa… tão básico, preto, branco, mesclado. De repente entra um rosa choque entre os cabides! Talvez seja, desculpem o estigma, um impulso “infantil”, dos baby boomers à geração Z. Cor de criança, cor de brinquedo, cor de Barbie. Rosa cheguei. Rosa plástico. Só para provocar mesmo.