Foto: Arquivo Harper’s Bazaar

Os anos 1970 estão fazendo o seu comeback para muito além da moda. As pesquisas científicas sobre o poder medicinal das drogas psicodélicas para tratar os males da mente têm revelado avanços incríveis e bons resultados até aqui. Um grupo de pesquisadores brasileiros tem levado a questão tão a fundo que passou a liderar um movimento mundial batizado de renascença psicodélica. A ideia é fazer do uso de MDMA, LSD, cogumelos e ayahuasca o mesmo que se deu com a maconha, aprovada em vários países para uso medicinal – e em fase de aprovação por aqui.

Não é de hoje que se pesquisam os poderes das drogas psicodélicas. O próprio escritor brasileiro Paulo Mendes Campos foi voluntário em um desses estudos no final dos anos 1960, e relatou suas experiências com o LSD: “Livrei-me de algumas túnicas da minha fantasia, quase todas depressivas. Despertei certa manhã de domingo, muito mais curioso do universo e muito menos angustiado pela catástrofe humana. Existir ficou um pouco menos difícil.”

Mas foi nos últimos anos, mais precisamente na última década, que passou-se a atribuir seus poderes ao tratamento de doenças como depressão, ansiedade, dependência química e transtorno de estresse pós-traumático. Para este último, aliás, já foram relatados muitos casos de sucesso. Um estudo publicado em 2020 sobre uso psiquiátrico de MDMA (metilenodioximetanfetamina) avaliou pacientes que sofreram violências como abuso sexual e passaram por psicoterapia acompanhada do uso de drogas psicodélicas por quatro meses. No resultado final, houve casos de cura e de melhora significativa – em média, dois terços dos pacientes saem do tratamento curados. A droga, que na década de 1980 recebeu o apelido de ecstasy, está próxima de ser legalizada nos Estados Unidos para o tratamento de traumas.

Com relação ao ayahuasca, o chá usado em rituais de comunidades indígenas e adotado por entidades de cura espiritual como Santo Daime e União do Vegetal para fins de cura espiritual, também ganhou atenção da ciência por agir no sistema nervoso central. Um estudo publicado recentemente na revista científica “Psychological Medicine”, dos Estados Unidos, avaliou a ação antidepressiva da substância em pacientes com depressão severa, e que não respondiam à medicina tradicional.

Foto: Arquivo Harper’s Bazaar

A pesquisa conduzida pelo neurocientista Dráulio Barros de Araújo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), usou também exames de imagens para mostrar que houve redução do quadro depressivo significativamente maior entre os que tomaram o chá de ayahuasca em relação ao grupo que se submeteu ao placebo. Após sete dias de tratamento, metade dos participantes do primeiro grupo estava completamente livre dos sintomas.

Até a psilocibina, presente em certos cogumelos, tem se mostrado efetiva contra depressão e ansiedade. Um dos estudos é conduzido por Renato Filev, pesquisador do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Segundo ele, a psilocibina tem o poder de alterar comportamentos repetitivos, caso do vício em substâncias químicas e do alcoolismo. Pela teoria do pesquisador, mudanças neuroquímicas e psicológicas podem alterar drasticamente a visão do paciente sobre si e ajudar na cura do vício ao proporcionar uma análise profunda da individualidade de cada um. Isso mudaria a forma como o paciente enxerga sua personalidade, seus comportamentos e suas emoções.

Trabalhos avançados nos centros de estudos psicodélicos da Imperial College, na Inglaterra, e da Johns Hopkins, nos Estados Unidos, investigam seu potencial terapêutico no tratamento da depressão.

É grande a chance dessas substâncias serem aprovadas nos próximos anos, inicialmente nos Estados Unidos e na União Europeia, e passarem a ser um tratamento psiquiátrico inovador. Com focos em diferentes distúrbios mentais, há algo de muito promissor que todos psicodélicos têm em comum. Já se sabe que ao fazer uso dessas drogas as pessoas, em geral, têm muitas visões, sonhos e lembranças. E quanto maior o efeito alucinante, maior também é o efeito terapêutico. Quem sabe a entrada na Nova Era, com a conjunção de Júpiter e Saturno no signo de Aquário, resgate a cultura hippie do paz e amor – e juntos possam aplacar a epidemia de tristeza pós-Covid que, tudo indica, está prestes a eclodir.