Márcia Silveira assume como head de comunicação da L’Oréal Luxo – Foto: Divulgação

Márcia Silveira, paulista de alma carioca, ultracomunicativa, e cuja simpatia explode nesta foto acima, é uma jornalista experiente. E, como tal, tem aquela inquietação típica de estar onde se concentram os movimentos mais importantes do mundo. Não por acaso, sempre esteve no lugar certo, na hora certa. Mas não por sorte. Por busca incessante mesmo.

Quando decidiu se embrenhar no universo da beleza, foi logo observar in loco o que acontecia no emergente mercado da classe C no Brasil. Eram os anos de ascensão social de milhões que começavam a conhecer e a experimentar a força do consumo pela primeira vez. À frente do Beleza Natural, uma startup especializada em cabelos crespos e cacheados, e extremamente inovadora para a época (na febre das chapinhas e alisamentos, já estimulava os fios naturais – com todo o sentido social e de autoestima que isso envolve), entendeu de perto uma necessidade que nascia.

Mulheres queriam dar um up na beleza com cosméticos e serviços melhores, indicados por quem entende do assunto, um privilégio até então das classes mais favorecidas, com acesso a bons cabeleireiros, maquiadores e dermatologistas. Ali, começava a escalada de sua carreira.

Não demorou muito, e Márcia estava vivendo em Nova York, mais precisamente no Harlem, onde instalaria a primeira filial brasileira do Beleza, fazendo parte do comitê de internacionalização da marca. Por um ano e meio, conviveu naquele celeiro de novidades estéticas, principalmente para negras, que caracteriza o bairro nova-iorquino. “Foi o melhor lugar de diversidade em que eu poderia estar”, lembra. “É a meca das mulheres negras e pessoas de todas as partes do mundo para alisar, deixar natural, fazer tranças, adotar estilos africanos – tem de tudo, além beauty stores segmentadas e salões específicos para a beleza afro.”

Marcia aprendeu muito no novo endereço sobre como as marcas se colocavam em termos de comunicação e explorou a fundo seu novo campo de visão. Todo esse conhecimento técnico foi ainda embasado em cursos de empreendedorismo no Boston College e em uma extensão de seu MBA executivo em Madri, na Espanha. “Lapidei meu conhecimento estudando, mas também no hands on, fazendo junto, estando em todas as partes do processo”, diz.

De volta ao País, foi chamada para assumir o Sistema B Brasil, uma organização global de líderes que usam os seus negócios para a construção de um sistema econômico mais inclusivo. Foi lá que ligou todos os pontos da sua vida profissional. Não bastava entender o que o consumidor quer. Era preciso compreender também o que as empresas têm a oferecer a esse público e ao mundo. “É receber e dar em troca, uma combinação de lucro com propósito, olhando para as comunidades, para o meio ambiente, para os recursos hídricos, entre outros”, conta ela.

E, mais uma vez, Márcia estava na crista da onda dos movimentos sociais mais importantes do século 21: o duo diversidade e sustentabilidade, pilares essenciais que a humanidade entendeu que não pode viver sem – e, mais que tudo, começa a perceber que é preciso mantê-los firmes e fincados no chãos.

Há pouco mais de um mês, a executiva assumiu a posição de head de comunicação da L’Oréal Luxo, respondendo por marcas como Lancôme, YSL, Armani e Prada, entre tantas outras. No lugar certo e na hora certa para fazer o luxo encontrar a diversidade – outro tema mais do que imprescindível no mundo atual. Diversidade é luxo. Luxo sem diversidade é exclusão. “Aqui, encontrei todos os princípios com os quais trabalhei nos últimos anos e eles estão presentes nas devidas proporções”, comenta.

Pergunto como é essa virada de chave, de migrar o foco das mulheres de classe C para as consumidoras de luxo da classe A: “Olha, a única diferença que vejo está no poder de compra. Em termos de busca de autoestima esses dois públicos têm muitas coisas em comum.” Ela completa: “Hoje, falamos de mulheres negras ganhando relevância no trabalho, tendo mais oportunidades e colhendo os primeiros frutos do sistema de cotas. Quero que mulheres iguais a mim se identifiquem com esses produtos.”

Em uma via de mão dupla, em que a necessidade de itens mais diversos estimula o outro lado do balcão, a indústria da beleza tem investido em cosméticos e serviços mais inclusivos em seu portfólio. “Sou de uma época em que não havia meia-calça para meu tom de pele, óculos com armações anatômicas para negros, maquiagens em tons diversos”. Pouca gente sabe, mas até os perfumes têm uma questão de fixação diferente em cada tipo de pele. Avançamos, mas ainda é só o começo.

Como líder, Márcia se inspira nos exemplos que teve dentro da família de classe média do Rio de Janeiro. “Minha mãe, meu pai, meus tios, todos me inspiraram a ocupar meu espaço com minha presença, minha educação. Minha liderança vem desta minha base.” Gosta de aprender com quem trabalha (as duas fundadoras do Beleza Natural, Heloísa Assis e Leila Velez, são referências importantes em sua vida e carreira), incentiva que todos ao seu redor brilhem e brilha junto vendo os outros crescerem.

Trabalha duro, mas não pense que ela não gosta de uma frescurinha. “Cheguei aqui e na primeira semana já queria tudo.” Quem nunca? Depois de dar seu giro de 360 graus no ciclo do consumo consciente e inclusivo, voltou ao ponto de partida para começar mais esse projeto inovador. E sabe melhor do que ninguém que pode tudo. O segredo? Incluir e acolher, sempre.