A atriz Isabel Wilker, defensora da onda - Foto: Giovana Gebrin, com edição de moda Rodrigo Yaegashi
A atriz Isabel Wilker, defensora da onda – Foto: Giovana Gebrin, com edição de moda Rodrigo Yaegashi

Por Eduardo Viveiros

A compra de roupa usada nunca foi um hábito forte brasileiro, mas esse cenário está mudando rapidamente. Antes restrito aos fashionistas e modernos, a exploração do second hand vai entrando cada vez mais na mira de uma boa parcela de consumidores que não ligava muito para a realidade dos brechós. Muito por causa de um preconceito cultural do País, que vem evoluindo em conexão com tendências mundiais de consumo de moda.

SIGA A BAZAAR NO INSTAGRAM

O mercado do resale tem alcançado números fenomenais. Em três anos, a revenda de peças usadas cresceu 21 vezes mais que o de roupas novas, com projeções de faturamento de US$ 51 bilhões nos Estados Unidos para 2023 – um aumento de quase 20% em relação a 2018, segundo pesquisa da GlobalData, consultoria especializada em mercado de varejo, encomendada pelo ThredUp, um dos grandes players do resale online.

No Brasil, o crescimento é considerável: números do Sebrae apontam mais de 14 mil brechós pelo País, aumentando ano a ano. Mas se a imagem das casas cheirando a naftalina que só atraem os garimpeiros corajosos ainda faz parte do imaginário, há um esforço para educar e atrair um mercado que começa a repensar seu consumo – seja pela economia do País, seja por consciência de sustentabilidade.

Manuela Rahal, da Bem Phyna, especializada em usados - Foto: Giovana Gebrin, com edição de moda Rodrigo Yaegashi
Manuela Rahal, da Bem Phyna, especializada em usados – Foto: Giovana Gebrin, com edição de moda Rodrigo Yaegashi

“Está acontecendo uma construção, as pessoas estão começando a valorizar mais. Esse universo do second hand é o futuro, porque a gente já produziu muita coisa e o mundo está beirando o colapso”, defende Manuela Rahal, que, de tão rata de brechó, acabou evoluindo de cliente contumaz a RP do Bem Phyna, ponta-de-lança nessa nova onda das “grifes” especializadas em usados. “É uma mudança cultural, acho que o brasileiro está começando a solidificar esse pensamento.”

Marie Kondo - Foto: Reprodução/Instagram/@mariekondo
Marie Kondo – Foto: Reprodução/Instagram/@mariekondo

Esses novos comportamentos de consumo também têm um pé na cultura pop. Com ondas de desapego alimentadas por figuras como a japonesa Marie Kondo, muita gente adotou o lema de “botar a energia para girar”. Um movimento que, aliado à crise moral em cima do fast fashion, fez crescer o interesse por peças de qualidade, revendidas em bazares entre amigas.

A atriz e artista visual Isabel Wilker é outra defensora dessa onda – além de garimpar nos closets da mãe, a atriz Mônica Torres, gosta de exercitar o olhar em araras de brechós e acervos alheios. “Tem muita gente fazendo circular seu próprio guarda-roupa. Durante muito tempo, a gente não estava antenada para isso, mas, naturalmente, as pessoas começam a fazer seus próprios movimentos de reflexão, influenciando outras”, diz.

Camisa da Yes, Brasil, à venda na NewDivisionShop - Foto: Reprodução/Instagram/@NewDivisionShop
Camisa da Yes, Brasil, à venda na NewDivisionShop – Foto: Reprodução/Instagram/@NewDivisionShop

Para fortalecer essa circulação de peças usadas, o segredo parece estar na curadoria. É o forte de centenas de brechós virtuais que surgiram no Instagram – até Alexandre Herchcovitch passou a vender seu guarda-roupa por lá -, assim como da NewDivisionShop, iniciativa de Fabio Bechepeche, especializada em marcas brasileiras dos anos 1980 e 1990.

Sapato à venda na Bem Phyna, especializada em usados - Foto: Giovana Gebrin, com edição de moda Rodrigo Yaegashi
Sapato à venda na Bem Phyna, especializada em usados – Foto: Giovana Gebrin, com edição de moda Rodrigo Yaegashi

É também o diferencial de brechós-boutique, como Bem Phyna, que vende online e em um showroom no Pacaembu, em São Paulo, com acervo de quatro mil peças. A maior parte delas pinçada de quem resolveu fazer uma limpa no armário, vendendo de Adidas a Yves Saint Laurent. “A seleção é uma mistura de fatores. Da peça estar em bom estado, ter uma história, um élan”, define Gabriela Abuleac, que fundou a operação em 2017. “Quero que o brasileiro desmistifique a roupa usada e, para isso, montei um lugar lindo e com seleção. Não tem mais como o brasileiro ser tão consumista sem pensar em economia circular. As roupas precisam fazer sentido.”

Blazer Escada by Margaretha Ley, na Bem Phyna - Foto: Reprodução/Instagram/@bem_phyna
Blazer Escada by Margaretha Ley, na Bem Phyna – Foto: Reprodução/Instagram/@bem_phyna

Tirando o pó

Animale - Foto: Henrique Gendre, com edição de Luis Fiod e beleza de Henrique Martins
Animale – Foto: Henrique Gendre, com edição de Luis Fiod e beleza de Henrique Martins

Dar uma segunda chance às roupas também está entrando no radar das grandes marcas, seja construindo acervos de peças especiais que estejam paradas em estoque – uma reinvenção do clássico modelo de outlet – ou armando bazares beneficentes, como a Animale fez, com roupas doadas pelas clientes.

A Bob Store e a Ellus têm os projetos BobVintage e Bazar Vintage, respectivamente, que levam para as araras de algumas de suas lojas peças selecionadas de coleções passadas com preços especiais. “A Ideia é valorizar roupas de qualidade independentemente da estação. São peças atemporais e únicas” diz Adriana Bozon, diretora criativa da Ellus e do grupo Inbrands.

Já sites de e-commerce têm garantido espaço para o que batizaram de “preowned”. Em maio, a Farfetch lançou uma iniciativa de recompra de it bags, oferecendo créditos no site em troca dos acessórios.

Leia mais:
Luxo sustentável: como ser eco friendly na era dos mimos
Arquitetando Memórias: a mulher amante de brechós
Slow fashion: entenda o movimento que promove o consumo sustentável