Prada, inverno 2021 – Foto: Divulgação

Por Caroline Campos

Na aclamada última colaboração de Raf Simmons e Miuccia Prada, ou Prfada, como está sendo apelidada pelos entusiastas da dupla, um amplo espectro de clássicos masculinos repaginados foram parte da coleção, com tons vibrantes e peças sobredimensionadas. Em meio a silhuetas expandidas em casacos genderless volumosos, como se fossem conchas em torno do corpo – bem-vindos mais que nunca nos tempos que vivemos, onde todo espaço que cause um distanciamento é muito bem recebido, obrigada – uma peça autônoma e histórica reapareceu causando o efeito inverso em meio à combinação, e roubou os holofotes: o long john. Ele ressurgiu também em modelos de Rick Owens, Emilio Pucci e Kenzo, entre outros.

É difícil cravar uma origem exata dessa roupa colada ao corpo, mas seu primeiro registro aparece no final do século 19, sendo inicialmente adotada como uma maneira de aquecer os soldados americanos no período de inverno na Segunda Guerra Mundial. A peça era feita majoritariamente em linho e algodão na versão americana e, na europeia, certamente influenciada por condições climáticas, se priorizava o uso de lã. Era uma espécie de evolução das ceroulas, utilizada apenas por baixo da farda e outras vestimentas.

Emilio Pucci, inverno 2021 – Foto: Divulgação

Já o curioso nome, long john, teria sido uma homenagem ao famoso boxeador John Lawrence Sullivan, que utilizava um modelo de longas calças justas e cós superalto. A peça se tornou algo muito característico do visual de suas lutas, onde foi consagrado o primeiro campeão de peso-pesado em uma época em que o esporte ainda era praticado sem luvas.

Mas long john ou union suits? Há ainda essa subdivisão, que causa um pouco de confusão, até mesmo na moda. Embora frequentemente o primeiro seja o nome mais popular, quando nos referimos a one piece, na história da vestimenta, eles eram chamados de union suits. O que os diferenciava, principalmente, eram os característicos botões de fechamento e as abas na parte posterior que foram praticamente abolidas no modelo adulto conforme a evolução da peça.

Com o passar do tempo, ambos se tornaram uma tentativa da indústria em libertar o sisudo vestuário masculino e o desconforto da vestimenta feminina saindo do contexto de apenas peça íntima. E realmente, por que não libertar o long john? Os tempos contemporâneos estão sempre nos mostrando quão mais divertido pode ser a moda quando nos libertamos das amarras.

Kenzo, inverno 2021 – Foto: Divulgação

Porém, ainda que estejamos em um mundo mais globalizado que nunca, é fato que a peça do lado de cá ainda causa um pouco de estranheza. O mais comumente abraçado por aqui, quando pensamos em peças coladas, são as leggings (e ainda não há consenso: afinal, elas são propriamente calças ou não?) e as fusô, que ganharam, inclusive, papel de destaque recentemente na coleção de inverno da Chanel, resgatando a tendência em diversos looks no Métiers D’Art.

É fácil imaginar o comeback da fusô, seja com saia, vestido, e em todas as suas diversas possibilidades complementando o visual – ou sendo o próprio look – em busca de praticidade, aquela versatilidade bem questionável que a brasileira ama (como ninguém!).

Mas em se tratando de long john, principalmente o apresentado como peça única em jacquard na Prada, é um tanto difícil imaginá-lo como um hit por aqui com a mesma proposta utilizada no inverno europeu, em sua utilidade máxima não só para aquecer os dias mais frios, mas também como um alicerce para sobrepor as mais diversas possibilidades de combinações.

Salvatore Ferragamo, inverno 2021 – Foto: Divulgação

Será que a brasileira usaria long john com essa mesma proposta do hemisfério Norte? Aqui, muito provavelmente, viraria igualmente modelo básico para ir à academia, levar filhos à escola, ir ao mercado e até emendar no almoço com as amigas – em tempos normais, claro. É nessas horas que as peculiaridades da globalização se fazem presentes.

Entretanto, não faz tanto tempo assim também que as peças que mais entravam e saíam do armário no dia a dia eram as pantalonas, cigarretes, até a skinny, com muito jeans e tecidos mais nobres – às vezes, nem tão confortáveis. E, por isso, um tempinho atrás, dar uma chance para o long john seria um ato quase revolucionário.

Mas, agora, as minhas e as suas jeans se encontram um tanto aposentadas no closet, ou já não saem mais para passear tanto assim. O que faz com que a atual realidade talvez sirva como trampolim para que arrisquemos cada vez mais, desafiando as nossas convenções até então consolidadas de moda. Então, pensando bem… já não seria nada mal desfilar de long john por aí.