Yeezy – Foto: Getty Images

Por Caroline Campos

O bege ocupou, historicamente, o temido posto de cor anti-sexy (quem nunca ouviu uma piadinha com a lingerie bege com cara de vó?). Mas deu a volta por cima e, recentemente, alcançou um novo status ao cair nas graças dos fashionistas. Sejamos justos. Kanye West deu o start na tendência há alguns anos: o rapper e designer adotou o tom desde a primeira coleção de sua marca, a Yeezy, com looks monocromáticos e minimalistas. Sua (atual? Ex?) Kim Kardashian também subverteu o bege ao deixá-lo, digamos assim, sensual, desde que lançou a label de shapewear Skims. E eis que ele reapareceu agora com força total, sendo abraçado nas passarelas e no streetwear.

A tonalidade abriu ainda mais espaço para a estética minimal, se tornando quase uma transgressão em um momento em que muitas marcas ainda apostam na logomania. É quase como um repouso para os olhos, seja no tom bege mais clássico ou em seus derivados como o areia, cru, mineral, latte, empoeirado, peachy, aveia… Uma variedade enorme de gradações que está aí para provar que é possível ser comfy sem deixar de ser fashion.

Hermès – Foto: Getty Images

A praticidade (que tanto estamos valorizando) é inegável. Por se tratar de um tom neutro, seja nos acessórios ou em suas mais variadas combinações, adiciona um toque de placidez e até mesmo glamour. Estilizado em tons fortes sobrepostos, ou ainda em um look monocromático, o all beige é o tão queridinho das parisienses.

A origem do nome é, inclusive, francesa. Seu significado vem do termo “lã não tingida”, e tem o primeiro registro como uma tonalidade de fato na literatura do século 19, pelo escritor Edmond de Goncourt. Em um passado longínquo, a falta de tingimento era vista como algo simplório demais. Assim que a moda foi avançando, lado a lado com o desenvolvimento da indústria têxtil, as cores ganharam espaço: quanto mais informação, mais poder.

Jacquemus – Foto: Getty Images

Mas isso mudou, no século seguinte, nas mãos de estilistas como Gabrielle Chanel. Para Coco esse era justamente o motivo de fazer do tom uma das suas assinaturas. “Eu me refugio no bege porque ele é natural”, dizia ela, que eternizou seu amor pela tonalidade até mesmo no nome de um de seus perfumes, no qual tentou reproduzir, por meio do cheiro, as sensações que a cor lhe proporcionava.

Para a expert em cores e diretora-executiva do Pantone Color Institute, Leatrice Eiseman, nesta fase pandêmica que estamos vivendo, vítimas do estresse e da incerteza, as pessoas também mudaram sua forma de consumo e estilo, sendo mais atraídas pelos tons reconfortantes. “Foi dada muita atenção à naturalidade da cor, pois ela parece não adulterada ou poluída. O bege, além de clássico, é sutil, confortável, mostra o bom gosto ao mesmo tempo em que possui uma sensação calorosa e estimulante, tão necessária nos tempos em que vivemos”, explica a especialista à Bazaar.

Off-White – Foto: Getty Images

Essa nova realidade fez com que a explosão de looks na tonalidade, seja nos moodboards de inspiração, tão populares nas redes sociais, ou no streetstyle, também respingasse na paleta de estilistas que abusaram do bege nos desfiles: caso da última coleção da Jacquemus e também da forte presença na grife americana Cult Gaia, além de ser um must-have já habitual nas passarelas de marcas como Acne Studios e as clássicas Fendi e Burberry.

O upcycling é, sem dúvida, mais um ponto positivo para o resgate do bege no guarda-roupa. Ao despertar associações mentais ao natural e ao cru, a simplicidade da cor ajuda a rever antigos hábitos excessivos de consumo. Um passo a mais na longa virada da moda rumo ao caminho da sustentabilidade.