Amber Joy Rava – Foto: Arquivo Pessoal

Amber Joy Rava é dançarina desde os três anos. Em 2001 ela também enveredou pelo mundo da ioga e da reflexologia. Um ano depois ela entrou para o mundo das performances e se apresentou no Cirque du Soleil. “Eu também fui para a Chapada dos Veadeiros para ensinar ioga e dança para a líder espiritual Kiah Keya”.

No tempo em que viveu na Índia, ela também organizou grandes eventos culturais em Udaipur, e trabalhou com mulheres de comunidades carentes do país.

Depois de inaugurar sua primeira escola de dança, em Alto Paraiso, e também apresentou ao mercado sua grife própria de roupas. “Cultivar o sagrado da sexualidade é o coração da nossa primeira coleção de lingeries, feita de bambu orgânico, e acessórios de palha”, afirma.

Leia abaixo entrevista com a multiartista:

Em que momento você deixou de dançar profissionalmente para se dedicar à moda? o que fez você virar esta chave?
Nunca parei de dançar! A dança e rituais de celebração são minhas fontes de inspiração para criar roupas e fantasias únicas. Para mim, essas duas artes caminham lado a lado. Entendo roupas como uma segunda pele. Junto com a nossa postura, o que vestimos é a nossa expressão mais evidente… A forma que você se veste diz muito sobre o momento que você está . As pessoas te sentem antes de falar com você, quando olham sua postura e sentem as suas linhas e seu desenho… Por isso que trabalho muito com medidas feng shui.

Quando você criou sua primeira coleção? Fale sobre ela
Minha mãe me ensinou a costurar quando eu era bem criança mas ela nunca me deixou usar sua máquina de costura, como hoje eu nunca deixaria uma criança usar minha maquina de costura (rsrs). Então eu costurava à mão e desenhava. Comecei a desenhar roupas pra mim mesma, tipo um look especial pro primeiro dia de aula. Minha mãe costurava para mim e eu fazia o bordado. E as primeiras coisas que criei para vender foram borboletas que bordava em bolsas usadas. Sentava com elas em Washington Square Park e vendia lá. Depois comecei a fazer minhas próprias roupas: eu cortava e pegava partes de roupas que já tinha e bolava algo, por que nunca achava exatamente o que eu procurava. Dai andava por aí e pessoas falavam “ah eu gosto disso, você pode fazer isso pra mim?”. E eu, vindo de uma família humilde, dizia sim para todas essas oportunidade. Não tive a oportunidade de criar uma coleção propriamente dita até muito depois, mas, quando tinha 16 anos, criei o que chamo de minha primeira coleção. Fiz todas as roupas do meu “girl group”, As RoundAboutSparkles. Nosso grupo viajava pelo Brooklyn jogando handball e andávamos de patins por todo lado. Isso foi nos anos 90. E foi assim que fui crescendo… Os clientes sempre me encontravam na rua. E de vez em quando eram bons clientes e me pediam para fazer uma coleção pessoal para eles. Não chamávamos isso de coleção, chamávamos de “wardrobe” e é assim que eu trabalho até hoje.

Por que escolheu viver na Chapada? Como você cria aí? Tem uma ateliê?
Eu fui convidada para apresentar minha dança do fogo sagrado em um casamento nas florestas de Alto Paraíso em 2004. Todo ano desde então fui convidada para dar aulas ou para performances. E nessas idas e vindas, comecei a criar roupas para artistas que cruzavam meu caminho. Em 2012 comprei minha própria casa, construí meu o templo de dança, minha escola de artes sagradas e comecei a construir meu ateliê.

Você tem algum trabalho social com a comunidade da Chapada?
Sim, eu treino, ativo e movimento as mulheres e crianças locais. Dou aulas de costura e design de moda e também de dança e circo para ajudá-las a manifestar seus sonhos com suas habilidades.

Lingeries sustentáveis da marca – Foto: Divulgação

Qual é a sua posição em relação à sustentabilidade?
Sustentabilidade é muito importante para mim. Trabalho com energia solar no meu ateliê e eu praticamente só uso tecidos orgânicos ou reuso e reciclo outros materiais. Amo a natureza e quero proteger o planeta terra para fazer parte da solução e não do problema. E preciso admitir que fiquei super decepcionada com essa questão no Brasil.

Quais são suas marcas/estilistas preferidos?
Preciso admitir que por mais que trabalhe com isso, não sou muito ligada ao mercado… Gosto muito do Dudu Bertholini, ele me inspira para brincar. Também gosto da marca sustentável de sapatos em São Paulo chamada Insecta.

Quais os seus planos para 2020?
Quero continuar no meu caminho para criar identidades que expressam verdadeiramente as almas das pessoas. E com isso, quero apoiar suas transformações pessoais. Em 2020 quero que meu trabalho seja legitimado. Sinto que cresci muito e quero conseguir alcançar mais pessoas, não só quem ta passando na rua. Pois meu trabalho representa algo mais profundo do que simplesmente comprar roupas em lojas. É realmente um processo sagrado e pessoal. Tecendo o que somos com a nossa expressão nos faz mais verdadeiros. Eu nunca fiz muita publicidade do meu trabalho..Há 7 anos pessoas estão me mandando entrar no Instagram e eu só entrei por volta de 2 anos atrás e entendi que pode me ajudar bastante. E agora eu finalmente tenho um ateliê para receber pessoas! Antes eu costurava em qualquer canto mas eu não tinha um ateliê até recentemente.

O que vem te inspirando na hora de criar?
Eu me inspiro e tenho visões no meu corpo. Eu não procuro inspiração de fora, eu sinto ela borbulhando de dentro. Os materiais e tecidos muitas vezes me dizem o que fazer. Eu pego minha tesoura e começo a cortar e drapear. É como se o vestido já estivesse lá, e só preciso colocar minha energia nisso para dar forma à ele. Eu sou movida por “embodiment clothes” que fazem as pessoas se mexerem, “that they can whirl and be free while feeling so beautiful and powerful to live out their dreams in comfort and class!!”. Os arquétipos me inspiram muito. Para mim é fascinante entender a força dos arquétipos e como constantemente podemos navegar de um arquétipo para outro e os processos que isso abre… Minhas roupas vestem os arquétipos. E o que mais me inspira é saber que consigo transformar pessoas em tantos níveis, e que posso trabalhar com todas essas ferramentas – as roupas, a dança, a performance – para vestir o avatar de cada pessoa.