Look da passarela da Nina Ricci – Foto: Getty Images

Em tempos de pandemia, proteger-se de um inimigo praticamente invisível virou palavra de ordem. Muito além da máscara e do álcool em gel, looks casulo vistos recentemente nas passarelas internacionais são metáfora perfeita para o momento atual.

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O formato exercita modelagens que envolvem o corpo, dando a impressão de que podem manter qualquer um isolado do restante do mundo. É bem verdade que, falando dessa maneira, a sociedade já vinha experimentando, há algum tempo, o comportamento recluso: dos hikikomori, os jovens japoneses que vivem sem sair de seus quartos, aos milhares de profissionais que trabalham sozinhos em home office – hoje, somos (quase) todos nós.

Sempre traduzindo em estética os humores da sociedade, a moda não poderia mesmo ficar de fora. Esse cenário ajuda a compreender por que vários designers já estavam apostando na ideia de proteção há cerca de três anos, ou seja, muito antes mesmo de o coronavírus nos assombrar.

Ao mesmo tempo, vínhamos observando, mais recentemente, a ênfase em volumes inspirados nos anos 1980 – que traz à memória outro período crítico, o surgimento da Aids – e, sugestivamente, no Renascimento, com suas nostálgicas imagens românticas e celestiais – ainda está fresca na memória a enxurrada de estampas retratando “O Nascimento de Vênus”, de Botticelli.

Look da passarela da Simone Rocha – Foto: Getty Images

Revisitando o vestuário de séculos passados a partir de uma feminilidade feminista, Simone Rocha começou a experimentar formas arredondadas de maneira discreta para o inverno 2018 e vem aumentando o tom desde então.

Para a próxima temporada do frio europeu, ela olha para as roupas de rituais da igreja, como batismo e procissão, para refletir sobre vida e morte, o que resultou em vestidos ovalados expressivos, em um interessante ponto de vista de alguém não-católico nascido na fervorosa Irlanda.

Look da passarela da JW Anderson – Foto: Getty Images

Também pensando no mundo meio caótico que estamos vivendo, Jonathan Anderson chegou à Nouveau Chic, como chamou a mais nova coleção da JW Anderson, que, de fato, traz ideias frescas para estruturas conhecidas, como unir dobradura à silhueta casulo e revisitar o shape balão.

Para entender essa estética é preciso resgatar a genialidade futurista de Cristóbal Balenciaga. A partir da influência do quimono japonês na moda do início do século 20, que acrescentava uma linha arredondada sobre as costas e deixava a bainha mais curta na frente, formando um efeito assimétrico, ele criou a barrel line em 1947, admirada inclusive por Christian Dior, que entraria para a história no mesmo ano com seu New Look.

Libertador, o visual, que lembrava um casulo eliminava a cintura, deixando o corpo livre para se movimentar. Uma década mais tarde, o costureiro espanhol lançaria o vestido-saco, o casaco cocoon e a saia-balão, para ser usada como um pufe único ou dobrado, resultando na estranha imagem de dois volumes sobrepostos.

Look da passarela da Balenciaga – Foto: Getty Images

São essas silhuetas – atualizadas sob a tesoura de Demna Gvasalia – que, hoje, inspiram o visual que parece perfeito para enfrentar dias tão distópicos. Na Guy Laroche, a silhueta balão quase conceitual é um dos dez looks exclusivos para o inverno 2021 que Richard René criou a partir de peças compradas no eBay.

Look da passarela da Burberry – Foto: Getty Images

Estética semelhante apareceu na coleção neorromântica da Nina Ricci, enquanto Riccardo Tisci deu formato oval ao clássico trench coat da Burberry.

Look da passarela da Balmain – Foto: Getty Images

Versões glamorosas apareceram na Balmain e na Halpern. Olivier Rousteing conseguiu o efeito transformando a barra dos vestidos em capa.

Look da passarela da Halpern – Foto: Getty Images

Famoso pelos paetês, Michael Halpern conseguiu o visual bolha com lamê “líquido” inspirado em Barbra Streisand e nos espetáculos da Ziegfeld Follies que animaram a Broadway nas três primeiras décadas do século passado.

Look da passarela da Marine Serre – Foto: Getty Images

Marine Serre, que incluiu máscaras de proteção no styling de seu desfile em Paris, também criou uma vestimenta de abrigo com náilon.

Look da passarela da Comme des Garçons – Foto: Getty Images

E, claro, falando em volumes, não dá para passar batido pela Comme des Garçons. Japonista por direito, Rei Kawakubo construiu sua fama por meio de silhuetas que desconstróem a visão de corpo. Para o próximo inverno, ela discute o dilema sobre a possibilidade ou não de se fazer algo totalmente novo.

Look da passarela da Area – Foto: Getty Images

Entre suas experiências com modelagens que repensam os corpos, estão as esculturas ovais que, assim como a bolha em formato de coração da Area, marca dos designers Piotrek Panszczyk e Beckett Fogg, podem até não ir para a rua, mas reforçam o simbolismo de reclusão que fez o mundo parar.