Stella McCartney – Foto: Divulgação

Por Jorge Wakabara

Abra os olhos – e as barras das suas calças: sim, elas estão voltando. No inverno 2021 de Stella McCartney, na coleção 01-21 da À La Garçonne (em conjunto de blusa e calça da mesma cor e material, terminando em uma sandália plataforma da parceria com a Melissa), no desfile da Palomo Spain, na Andaluzia, no tapete vermelho do Billboard Music Awards (caso do look Balmain de Doja Cat, com listras em P&B): a calça boca de sino está entre nós.

Chame como quiser: flare, que geralmente é um pouco mais solta na coxa e menos larga na barra; pata de elefante, que é a boca de sino enorme, cobrindo o sapato; bootcut, que é a mais discretinha e se chama assim porque comporta um cano alto de bota por dentro… Mas faz sentido ela voltar agora, em pleno 2021?

À La Garçonne – Foto: Divulgação

Fora o apelo das décadas de 1970 e 1990 na moda de hoje, faz. Historicamente, a boca de sino esteve lado a lado com momentos de “fervo também é luta”. Os anos da liberdade sexual, dos LGBTQIA+ e da democracia racial da disco music, e da era clubber, onde todo mundo podia ser alguém na pista de dança, tinham a boca de sino como uniforme e mostraram o poder de persuasão de uma peça fashion, transbordando para ambientes mais caretas, nos ternos de executivos e nas calças bailarina das patricinhas.

Com a expectativa de um novo êxtase de batidas hipnóticas e hedonistas (você leu a edição passada da Bazaar, não leu? Os novos loucos anos 1920 vem aí!), e pautas sociais pulsando na boca do povo, a boca de sino tem tudo para dominar as vitrines, seja em jeans ou tecido plano.

Arte Harper’s Bazaar Brasil

Você sabe toda a história dela? Pode embarcar: a nossa viagem no tempo começa… agora! Os primeiros registros desse modelo de calça mostram marinheiros norte-americanos, no século 19. Acredita-se que, ao molhar a calça com água do mar, coisa que devia acontecer com frequência, eles achavam mais fácil tirá-la e trocá-la se ela tivesse a boca mais larga.

Mas foi na segunda metade dos anos 1960 que a boca de sino se tornaria o #lookdodia da época: e é também por isso que costumamos creditar a popularização da peça aos hippies, mas não é bem assim. No visual paz e amor raiz dos anos 1960, a calça era justinha.

Quem disseminou a boca de sino por aí foram os famosos! Mick Jagger, Sonny & Cher, Jimmy Hendrix. Os fãs foram correndo atrás e… Vieram os anos 1970 e, sem uma calça boca de sino, você não era ninguém: no bairro londrino de Chelsea, na Rua Augusta em São Paulo, no escritório, no palco (de ABBA a Black Sabbath), na pista de dança.

Arte Harper’s Bazaar Brasil

Quase no fim da década, o terninho branco de John Travolta em “Embalos de Sábado à Noite” trazia a boca de sino para o esplendor da telona. A modelagem ficaria marcada para sempre como símbolo da década. A data “oficial” da morte da era disco é 12 de julho de 1979, quando o DJ Steve Dahl organizou a Disco Demolition Night, uma noite em que cerca de 50 mil pessoas se reuniram no Comiskey Park de Chicago, em um intervalo de um jogo de beisebol, para queimar álbuns de disco music em pegada que hoje soa, cá entre nós, bastante racista e homofóbica.

A boca de sino, ícone da disco ao lado do globo de espelhos, praticamente acabou junto. Nos anos 1980, quem reinaria? As clochards, as pantalonas, as semi baggy… E se você fosse um Ramone, as justas, claro.

Os anos 1990 reeditaram a boca de sino. Foi o britpop de Oasis, Blur e Pulp? Foram os clubbers, reinventando a disco music em forma de house music e montação? Foi a Mel B das Spice Girls, toda trabalhada na estampa de oncinha? Foi o minimalismo, que quis chamar a atenção para os ângulos das suas roupas mais limpas e puras? É o caso de marcar “todas as alternativas acima”.

Para as massas, apareceu em versão mais discreta da calça, um denim bootcut. Ah, e a cintura? Baixa. Baixíssima. Era normal fechar só com três botões. Como a década, esteticamente falando, demorou para acabar, foi exatamente em 2000 que o estilista Hedi Slimane assumiu a Dior Homme, com uma imagem de moda forte, calcada no justo e divulgada por uma importante musa: Kate Moss.

A ditadura do skinny jeans começou, mas muita gente ficou na ala dos rebeldes: o bootcut brigou pelo posto das paradas com o skinny. Em suma, o tecido com elastano justérrimo fazia parte da silhueta da vez, mas sempre teve o bootcut ali do lado como uma outra opção (e a reta, sejamos justos e sem trocadilhos, também correndo na paralela, com chances de ocupar um lugar no pódio). Tempos de democracia fashion e do mercado querendo agradar a todos. A diferença para 2021? A ditadura não vai voltar, mas a barra quer alargar. E muito!