Foto: Divulgação
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Por Eduardo Viveiros

O upcycling entrou, definitivamente, no vocabulário da moda em 2019. Muito se fala sobre os danos que a indústria têxtil causa na natureza, e o reuso de matérias-primas que já estejam no mercado é uma das soluções apontadas, mesmo que de forma paliativa. E o que era recurso velho, conhecido de pequenos artesãos e marcas menores, vem subindo na escala, atingindo (e conquistando) uma fatia mais privilegiada do mercado consumidor.

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É aí que entra a Frank Studio, marca recém-lançada por Marcelo Barbosa, e que começa a ser vendida na Pinga, multimarcas de São Paulo. São roupas únicas, feitas com tecidos que estavam esquecidos nos depósitos de confecções e tecelagens. “Estou transformando aquilo que ia virar lixo em coisas que, eu tento, sejam bonitas novamente”, define ele, medindo palavras, mas concordando que as pessoas andam falando mais do que precisam.

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“Hoje você percebe que essa história do sustentável virou mais uma modinha, é a hashtag da vez. E que muitas dessas pessoas têm um lifestyle que não condiz com o que elas vendem como moda. Então, o texto fica meio frouxo, porque é chique falar que o algodão é orgânico, mas a discussão acaba por aí. Eu acho isso muito contraditório. Quero ficar coerente dentro desse espectro.”

Marcelo, que se define como não-consumista dentro da sua vida sustentável, tem em si uma história multívaga pela moda. Formado em cinema, foi diretor de filmes de publicidade antes de se tornar marido e sócio de Lorenzo Merlino, no final dos anos 1990. Foi quando teve o que chama de “intensivão de moda”, absorvendo o mood do Studio Berçot, de Marie Rucki, a mestra francesa de Lorenzo.

No fim da passagem pela marca, além de investidor, também se arriscava na criação. Depois disso, entre idas e vindas, acumulou um desfile próprio na Casa de Criadores, criação de brandings e campanhas para outras grifes, uma fase na Zoomp original e, mais recentemente, a assinatura de coleções-cápsula masculinas para Adriana Barra e Farm.

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A Frank surgiu depois do fim de sua revista digital “M Journal” e de uma busca por propósitos. “Não consigo não fazer roupa, de alguma maneira sei que é aí que vou ser feliz”, reflete.

A criação começou no armário de casa, observando uma colcha feita de patchwork, herança da bisavó do marido norte-americano. Nos Estados Unidos, a técnica de construção têxtil com retalhos tem raízes culturais. “Foi um processo muito orgânico, que aconteceu aos pouquinhos. Me peguei com vontade de fazer roupas de patchwork, comprei pedaços de um banco de tecidos e comecei a construir as primeiras peças.”

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O projeto evoluiu quando Barbosa começou a perceber que estava se metendo em um mundo muito mais profundo de desperdício têxtil. “No meio da criação, uma confecção do Bom Retiro desovou sacos e mais sacos de retalhos na minha casa, que eram restos parados da produção deles. E eram quilos de tecidos que não tinham estrutura para o patchwork tradicional, então tive de reinventar a história para poder aproveitá-los.”

Surgiu, daí, a primeira coleção oficial da Frank Studio – nome que faz referência ao personagem Frankenstein, que, como as roupas da marca, foi construído com pedaços que se combinavam de alguma maneira. Repensando o patchwork com esses retalhos possíveis, Marcelo criou uma pequena linha de calças amplas, vestidos com crash de estampas, tops, bodies e casacos leves – sempre adornados com pequenas bossas, que são sua marca registrada, como amarrações de lenços. A graça fica por conta dos encaixes e montagens, mantendo um quê de peças únicas para as roupas.

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