Foto: Arquivo Harper's Bazaar
Foto: Arquivo Harper’s Bazaar

O #metoo começou nas redes sociais há cerca de dois anos denunciando abusos sexuais. Com a força de um tsunâmi, provocou uma onda gigante de denúncias envolvendo homens poderosos e anônimos mundo afora. É inegável que o movimento contribuiu para encorajar a fala sobre um assunto que sempre teve o peso de tabu. Por isso, parece curioso que, em plena fase moderna do feminismo, o espartilho – ou corset – esteja de volta à passarela. Símbolo de submissão e tortura séculos atrás, rechaçado por Paul Poiret e Coco Chanel, a peça reapareceu nos comportados anos 1950 e ganhou peso transgressor na década de 1980. É daqui que parte o atual revival.

SIGA A BAZAAR NO INSTAGRAM

Quem não se lembra da versão modelador que a sempre polêmica Madonna usou na turnê Blond Ambition, em 1990? Assinada por Jean-Paul Gaultier, a peça surgiu no palco “furando” o blazer e usado sobre a calça. A mensagem era clara: as mulheres estão no comando. Nada mal como resumo comportamental da década oitentista – época em que a mulher se vestiu para atingir o sucesso, exigir igualdade e resgatar a lingerie sexy. Foi de olho nos anos 1980 que o diretor criativo Nicolas Ghesquière levou o espartilho para o inverno 2019 da Louis Vuitton, em vestidos lembrando looks icônicos da performática Cindy Lauper.

Louis Vuitton - Foto: Divulgação
Louis Vuitton – Foto: Divulgação

Ghesquière repetiu a dose para o desfile resort 2020, em maio, combinando a peça com bermuda em alfaiataria e saia-besouro arrematados por botas pesadas. Mais transgressores foram os looks em que o espartilho veio como estrela de peças únicas que simulam camadas – por exemplo, sobre segunda pele ricamente bordada, com mangas drapeadas e zíper aparente. Street, boudoir e couture, tudo junto e misturado, genial.

Foto: Getty Images
Foto: Getty Images

Na mesma época, Kim Kardashian atraiu todos os holofotes no tapete rosa do Met Gala a bordo do vestido “molhado” de Thierry Mugler, que chamava a atenção para a cintura finíssima, comprimida por um espartilho. É impossível negar que ali estava a confirmação da proposta provocativa, poderosa e inegavelmente sedutora.

Vivienne Westwood - Foto: Divulgação
Vivienne Westwood – Foto: Divulgação

Eterna apaixonada pela desconstrução punk dos trajes do século 18, a inglesa Vivienne Westwood, é verdade, nunca olhou para a peça como tendência. Tanto, que é uma de suas assinaturas. Para o inverno 2019, ele veio curtinho e transgressor, associado à legging estampada mais camisa social masculina ampla e desabotoada.

Dion Lee - Foto: Divulgação
Dion Lee – Foto: Divulgação

Dion Lee fez modelo parecido para ficar no comando do visual com calça de alfaiataria em estilo workwear.

Burberry - Foto: Divulgação
Burberry – Foto: Divulgação

Riccardo Tisci para a Burberry brincou jogando um corset longo sobre slip dress e arrematando tudo com tênis e meias brancas. As imagens passam longe da ingenuidade e opressão. Elas, decididamente, falam de domínio do próprio corpo em sintonia com o coro de milhares de mulheres de todas as idades neste século 21. Na evolução da proposta valem, ainda, menções mais sutis à peça em um contexto bem streetwear.

À La Garçonne, 2-2019 - Foto: Divulgação
À La Garçonne, 2-2019 – Foto: Divulgação

Alexandre Herchcovitch fez para a coleção 02-2019 da À La Garçonne uma jaqueta levemente acinturada com barbatanas.

Balmain - Foto: Divulgação
Balmain – Foto: Divulgação

Enquanto Olivier Rousteing, diretor criativo da Balmain, levou para o menswear verão 2020 uma espécie de espartilho tromp l’oeil em uma camisa brincando com as cores preto e branco.

Versace - Foto: Divulgação
Versace – Foto: Divulgação

Para a mesma temporada, Donatella Versace propôs tubinho corsetado de couro sobreposto à democrática camiseta, ensinando como rejuvenescer ainda mais a tendência. Foi interessante ver peças inspiradas no shape do espartilho em meio aos looks masculinos das duas grifes europeias, desfiladas por garotas de espírito livre com performances em pé de igualdade com os meninos. Poder sim; repressão, nunca mais.