Yuwei Zhangzou usa look total Stella McCartney – Foto: Getty Images

Por Chiara Gadaleta

A moda é um repórter de seu tempo e a moda pré-pandemia dava sinais de uma conexão cada vez maior com as questões ligadas à sustentabilidade. Boas práticas, como o uso de materiais de menor impacto, tecidos reciclados, orgânicos, compensação de emissões de CO2, #plasticfree, #vegan e apoio a projetos do terceiro setor, já faziam parte do cenário fashion.

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Na última temporada europeia de desfiles, em março, no início das notícias sobre o novo coronavírus, a sustentabilidade apareceu na maioria das apresentações, quando não em cima das passarelas, no backstage, com reciclagem de resíduos ou no cenário das apresentações.

A verdade é que a moda já começava a integrar a sustentabilidade de dentro para fora e, finalmente, todos estavam na mesma página. A tendência estava clara: a moda assumia uma nova missão, ser o upcycling da sustentabilidade. Quem já tinha a preocupação com a natureza, com os animais e com as comunidades em seu DNA, hoje está em estágio avançado.

Christopher Raeburn – Foto: Reprodução/Instagram/@christopher.raeburn

Os precursores desse movimento mundial, como a estilista inglesa Stella McCartney, a designer ativista Vivienne Westwood e Christopher Raeburn, conhecido pelo seu trabalho de upcycling desde 2009, vêm construindo uma narrativa consistente com discurso e ação, pois já exercitavam modos de aumentar a escala da moda consciente.

Vivienne, uma das criadoras do movimento punk nos anos 1970, segue com suas colaborações sustentáveis com outros estilistas; Christopher foca mais do que nunca em dar nova vida a materiais ou estoques em desuso; e Stella, vegana desde 2001, se tornou consultora de sustentabilidade do grupo LVMH e pretende disseminar técnicas e conceitos para outras marcas do grupo.

Flavia Aranha – Foto: Reprodução/Instagram/@flaviaaranha_

No Brasil, as labels que já fazem parte do Movimento Ecoera desde 2007, como a Vert, com design francês e matéria-prima nacional, a cearense Catarina Mina, a Reserva, uma das ganhadoras do Prêmio Ecoera, a Osklen, pioneira na busca por tecidos ecofriendly, Flavia Aranha, com seus tingimentos naturais, já haviam integrado os conceitos de uma moda mais responsável e transparente, e começavam a se destacar como marcas do futuro.

Damyller – Foto: Reprodução/Instagram/@damyller

Outras, alinhadas aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da agenda da ONU, são as empresas Guardiãs da Água na Moda, como Vicunha, Marisa, Damyller e Sou de Algodão, que já incorporaram o compromisso na gestão responsável dos recursos naturais e escolheram se relacionar com seus consumidores por meio de valores e propósito.

Com a chegada da pandemia da Covid-19, a moda, que estava se encantando por um futuro mais verde, deparou com um sinal vermelho: distanciamento social, quarentena, home office e lojas físicas fechadas. O mundo parou e ligou o modo sobrevivência. Desfiles cancelados, eventos adiados. Uma nova rotina trouxe novos hábitos, as compras online cresceram e ampliaram seu alcance. O home office mudou a agenda de reuniões, e os looks de trabalho ganharam outra cara.

Foto: Reprodução/Instagram/@soudealgodao

O tempo em quarentena obrigou o mercado da moda a refletir e agir com rapidez, e as marcas investiram em uma comunicação direta com seus clientes por meio das redes sociais, com foco na saúde física e mental. Nesse período de distanciamento, inauguramos um novo capítulo na moda brasileira, o da solidariedade: muitas marcas fizeram campanhas de doação de cestas básicas, e outras mobilizaram esforços para produção de máscaras de tecido.

Vivemos intensamente esse período de crise, e a moda brasileira teve de se recolher, acelerar processos e aplicar novos modelos de negócios. Fizemos, em dois meses, o que não teríamos conseguido em dois anos! Sabemos que a retomada da economia irá trazer desafios, principalmente o desconhecido.

A moda, por natureza, tem uma grande capacidade de reinvenção, e a criatividade, a inovação e a sustentabilidade serão ferramentas fundamentais. O que sabemos é que a moda terá um olhar mais cuidadoso para sua cadeia de valor local. Teremos a chance de valorizar a moda feita no Brasil e garantir milhares de empregos.

Inovação e tecnologia serão bem-vindas: algumas empresas têxteis já iniciaram pesquisas em busca de tecidos bactericidas e outras ampliaram suas vendas para multicanais, proporcionando mais renda para seus colaboradores. Neste novo mundo, o consumidor de moda, que já vinha se colocando de forma mais consciente, será mais atento ao que tem qualidade e ao que é essencial.

As máscaras de tecido se tornarão objetos de desejo e comprar o que é feito no Brasil será uma prática cool. São muitas projeções e vamos viver essas transformações a cada dia. Lembrando que a sustentabilidade na moda não é um destino e, sim, uma jornada, na qual cada um de nós tem um papel. O nosso, na Bazaar, é espalhar as boas notícias de uma moda mais sustentável, diversa, moderna e inclusiva. Vamos juntos!